Valor - SP 20/05/2026
Representantes dos setores público e privado discutiram desafios do país na área
O Brasil tem uma grande oportunidade no setor de minerais críticos, mas depende para avançar de um tripé que envolve políticas públicas, ambiente de negócios e instrumentos de financiamento. Essa foi uma das conclusões do evento "Energia e soberania: a posição do Brasil", parte do projeto Transição Energética, iniciativa do Valor e do jornal O Globo, com patrocínio da Vale.
Executivos e especialistas presentes no evento também apontaram soluções para o Brasil se tornar protagonista global na atração de investimentos em energias renováveis, com destaque para o aprimoramento do ambiente regulatório e a segurança jurídica.
O primeiro painel do evento, realizado nesta terça-feira (19) no auditório da Editora Globo, no Rio, teve como tema "Minerais críticos, tecnologia e novas dependências globais". Os participantes destacaram que os recursos minerais serão cada vez mais demandados para a transição energética e que o Brasil está em posição geopolítica internacional estratégica.
Em um contexto em que os Estados Unidos e a Europa têm buscado reduzir a dependência da China, o país pode sair na frente, afirmou Aline Nunes, gerente de assuntos minerários do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram). "Os países precisam do fornecimento desses materiais e boa parte desses países não detém essas reservas em quantidade suficiente. O Brasil tem oportunidade de ser protagonista", afirmou.
A executiva ressaltou que o Brasil tem uma série de vantagens competitivas, como diversidade mineral, cadeias produtivas desenvolvidas, infraestrutura e histórico de conhecimento da mineração, além de um arcabouço regulatório em desenvolvimento.
Também integrante do painel, Rafaela Guedes, CEO da RG Impact e consultora do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), avaliou que uma regulamentação adequada é que vai garantir previsibilidade para atrair o capital estrangeiro necessário aos investimentos em pesquisa e desenvolvimento no setor: "O grande desafio é como transformar essas oportunidades em reserva. Como transformo os minerais que estão debaixo da terra em uma cadeia da política industrial?", afirmou.
O governo federal, por sua parte, está atuando para avaliar o risco dos projetos e acelerar investimentos via Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), afirmou o diretor de desenvolvimento produtivo, inovação e comércio Exterior do BNDES, José Luis Gordon. Na visão do executivo, os minerais críticos estão entre as agendas estratégicas da Nova Indústria Brasil (NIB).
Ele ressaltou que os minerais críticos são fundamentais não só para a descarbonização, mas também para digitalização da economia: "Não queremos ser apenas exportadores de minerais. Queremos que a transformação, o beneficiamento e a geração de empregos sejam feitos aqui. Pode ser com União Europeia, EUA ou Japão. Quem tiver interesse de agregar valor, o Brasil vai aceitar o investimento e trabalhar junto".
O diretor informou que o banco estruturou uma estratégia em etapas para o setor. A primeira fase envolveu a criação de um Fundo de Investimento em Participações (FIP) com a Vale, voltado para companhias em estágio inicial. Depois, o BNDES lançou junto com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) uma chamada pública que selecionou 56 projetos com potencial de investimento de R$ 50 bilhões.
Executivos também apontaram soluções para o Brasil se tornar protagonista em investimentos em energias renováveis
Agora, a instituição estuda ampliar o uso de participações acionárias, via BNDESPar, para destravar investimentos. Gordon ressaltou que um dos gargalos enfrentados por empresas em estágio inicial é a oferta de garantias. Nesse contexto, citou a criação de um fundo garantidor previsto no projeto de lei sobre minerais críticos em discussão no Congresso.
O segundo painel, intitulado "Autonomia energética e estratégia industrial para o século XXI", discutiu a estratégia industrial e o papel do país na reorganização das cadeias globais de valor. Apesar de o Brasil ter uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, o país vem sofrendo com cortes de energia, que afetam os investimentos em energia renovável e criam uma distorção entre oferta e demanda.
Sérgio Romani, CEO da Genial Energy, destacou a importância de se investir na digitalização das redes elétricas, assim como ocorre nos países da Europa, com a abertura do mercado livre para todos os consumidores, que podem escolher o fornecedor de eletricidade. "A transição energética no setor elétrico é feita com a descarbonização, a descentralização e a digitalização. Não adianta trazer tecnologia e inteligência artificial para melhorar o consumo e não ter acesso ao dado do cliente."
Leonardo Euler, vice-presidente de assuntos governamentais da Vestas para a América Latina e ex-presidente da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), lembrou que é preciso mais do que uma matriz elétrica verde para o Brasil protagonizar a nova onda de investimentos globais. Para ele, há potencial de geração de valor com a digitalização do setor de energia.
"A eletricidade 4.0 está muito relacionada a uma energia mais conectada, mais inteligente e muito mais bem controlada. Dados, elétrons verdes e conectividade digital são a nova economia." Euler destacou ainda que é preciso avançar no arcabouço regulatório envolvendo a criação de diferentes faixas de preços para a energia com base no horário de consumo.
Nivalde José de Castro, coordenador-geral do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel) da UFRJ, afirmou que os problemas atuais de "curtailment" (gargalos na transmissão) refletem a dinâmica do crescimento das fontes renováveis, gerando distorções no setor. Além de citar iniciativas como a construção de fábricas de baterias químicas, ele defende a construção de usinas hidrelétricas reversíveis como uma das soluções.
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