Grandes Construções - SP 19/10/2026
A indústria processadora de aço atravessa 2026 sob pressão de uma demanda doméstica mais fraca.
Dados analisados por relatório periódico econômico da Abimetal-Sicetel (Associação Brasileira da Indústria Processadora de Aço e Sindicato Nacional da Indústria Processadora de Aço), mostram uma desaceleração da atividade que se intensificou a partir do 2º semestre de 2025, levando a uma retração de 11,3% do setor no acumulado até agosto.
O levantamento se baseia na Pesquisa Industrial Mensal – Produção Física (PIM-PF) do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e em estatísticas de comércio exterior do Comex Stat.
Ao mesmo tempo, as importações de produtos processados de aço apresentam queda em relação a 2025, mas permanecem em níveis elevados quando comparadas à série histórica.
De acordo com o estudo da Abimetal-Sicetel, todos os meses do ano registraram volumes de importação superiores aos observados em 2024, enquanto agosto apresentou nível acima dos registrados em junho e julho.
O cenário indica que a redução das compras externas não foi suficiente para compensar a perda de ritmo da indústria brasileira.
“Os números mostram que não basta olhar apenas para a queda das importações. O que está acontecendo é uma combinação preocupante: o volume importado diminui, mas continua em um patamar alto, enquanto o consumo de aço no mercado interno perde força”, comenta Ricardo Martins, presidente da Abimetal-Sicetel.
Para a indústria processadora, isso significa menos demanda e um ambiente ainda bastante competitivo”, afirma.
Pressão – A retração da atividade durante 2026 é observada em diferentes segmentos atendidos pelo segundo elo da cadeia do aço, representado pela Abimetal-Sicetel.
Entre as empresas associadas, estão fabricantes que fornecem para máquinas, equipamentos e implementos agrícolas e industriais, um mercado que vem sentindo de forma mais intensa a perda de ritmo da atividade econômica.
A indústria automotiva aparece como uma exceção relativa nesse cenário, com desempenho mais favorável entre os segmentos consumidores de produtos processados de aço.
O fraco desempenho em 2026 das indústrias que envolvem a cadeia do aço é evidenciado pelos resultados do setor de máquinas e equipamentos e da fabricação de produtos de metal, que acumulam quedas de 7,8% e 2,8%, respectivamente.
Como comparação, a indústria de transformação como um todo recua 0,1% no ano.
“O setor de processamento do aço está diretamente ligado ao desempenho da economia brasileira”, pondera Martins.
Segundo ele, quando a indústria reduz produção, investimentos e encomendas, o efeito aparece rapidamente na cadeia.
“Temos empresas associadas fornecendo para máquinas e equipamentos que estão enfrentando esse ambiente de menor demanda. A cadeia automotiva tem apresentado uma dinâmica diferente, mas ela não representa todo o mercado”, explica.
Importações – A análise da Abimetal-Sicetel mostra que a desaceleração das importações em 2026 precisa ser observada com cautela.
Embora os volumes no acumulado do ano estejam abaixo dos registrados em 2025, eles permanecem elevados, superando os valores observados em 2024 ao longo de todo o ano, o que mantém a pressão competitiva sobre os fabricantes brasileiros.
Para o presidente da associação, o cenário reforça a necessidade de políticas que preservem a competitividade da indústria nacional.
“Uma redução das importações, embora positiva, não significa por si só uma recuperação do mercado brasileiro”, avalia Martins.
Para ele, o patamar segue elevado, enquanto a presença de produtos chineses mantém uma forte pressão competitiva sobre as empresas nacionais.
“Precisamos de condições mais equilibradas de concorrência, capazes de evitar que a indústria brasileira perca espaço para produtos importados e de preservar sua capacidade de produzir, investir e gerar empregos”, afirma.
O Estado de S.Paulo - SP 19/10/2026
Depois do tsunami das importações de aço, principalmente da China, a partir de meados de 2023, a indústria siderúrgica no Brasil já se sente mais aliviada e, com confiança, para tirar da gaveta novos projetos de investimentos. O exemplo mais evidente é o do grupo ArcelorMittal, que em agosto confirmou um plano de investimento de R$ 4 bilhões a R$ 5 bilhões no Espírito Santo e agora está na fase final de estudos para definir novo projeto, de valor equivalente, no Estado do Ceará.
O ritmo da entrada de aço estrangeiro no País desacelerou aos poucos e o índice sobre o consumo aparente, que em certos momentos atingiu 25%, baixou para a média de 18,5%. Ainda é considerado elevado, na visão do setor — o porcentual que as empresas consideram confortável é em torno de 10%. Durante 20 anos, até 2019, esse era o porcentual, de acordo com dados do Instituto Aço Brasil.
A queda é resultante de medidas de contenção à avalanche de aços importados — superou mais 6 milhões de toneladas no ano passado, somando aços planos, longos e especiais. Empresas do País abriram várias ações antidumping contra a importação de diversos tipos de produtos que chegavam com valores abaixo do custo de produção no país de origem. Ao mesmo tempo, foram criadas cotas para conter o material estrangeiro.
“Foi um trabalho contínuo de três anos com os técnicos do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) com o setor demonstrando os impactos na indústria local”, afirma Jorge Oliveira, presidente da ArcelorMittal Brasil e CEO da ArcelorMittal Aços Planos América Latina.
O grupo, segundo maior do mundo na siderurgia, comandado pelo empresário indiano Lakshmi Mittal e seu filho Aditya, tem um plano de investir até R$ 12 bilhões no Brasil até 2030. Mas o apetite, como lembra o CEO da ArcelorMittal Brasil, está vinculado ao reforço na defesa comercial (com ações antidumping e hard cotas), à redução do custo Brasil, do gás natural e de energia, e, principalmente, ao crescimento mais consistente da economia brasileira.
No início do ano, A ArcelorMittal concluiu no País investimentos de R$ 25 bilhões, desde 2022. O período foi marcado por aquisições de ativos locais e expansões de fábricas, incluindo o segmento de minério de ferro e o de geração de energia renovável para suprir suas unidades fabris.
Seguindo a estratégia de crescer no País, a expectativa é anunciar até o final do ano a decisão sobre a instalação de uma laminadora de aço no Ceará, dentro da planta siderúrgica localizada em São Gonçalo do Amarante, na área do Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP). “Espero, antes do fim do ano, ter os dados dos nossos estudos e fazer esse anúncio”, disse o executivo, em entrevista ao Estadão.
Segundo Oliveira, o estudo de viabilidade econômica, ao custo de R$ 35 milhões, está na reta final e, preliminarmente, o novo projeto é avaliado entre R$ 4 bilhões e US$ 5 bilhões. O plano é fazer aço laminado a quente, agregando valor a pelo menos metade das placas produzidas na ArcelorMittal Pecém.
A capacidade de produção prevista é de 1,5 milhão de toneladas a 2,2 milhões de toneladas por ano. A ArcelorMittal Pecém hoje faz 3 milhões de toneladas de placas por ano. É uma siderúrgica nova (dez anos de operação) adquirida da Vale, Posco e Dongkuk Steel em 2022, em um negócio de R$ 11,2 bilhões.
O laminado a quente é aplicado na fabricação de centenas de itens industriais, como implementos e máquinas agrícolas e rodoviários, rodas automotivas, chassis e quadros de caminhões, ônibus e carretas, estruturas metálicas para galpões e pontes e botijões de gás. Também é matéria-prima para aços de maior valor agregado, como laminados a frio e galvanizados.
Posicionamento estratégico no País
O novo ciclo da ArcelorMittal no Brasil, até 2030, teve o primeiro passo ao confirmar investimento de R$ 4 bilhões a R$ 5 bilhões em uma planta de aço galvanizado em Serra (ES) em agosto. A partir de julho, o cenário ficou mais confortável para o setor com desaceleração das importações. A nova planta vai adicionar 560 mil toneladas por ano de aço galvanizado ao volume que é feito na unidade Vega, em São Francisco do Sul (SC).
Além de atender a uma demanda antiga do governo capixaba, de um novo investimento no Estado, o projeto leva a uma maior oferta de aço para aplicações mais nobres no mercado nacional. O galvanizado é usado principalmente em carrocerias de automóveis, em produtos de linha branca (geladeira, fogões, freezers) e também na construção civil.
Na estratégia de diversificação de seus ativos no País, a ArcelorMittal reduz a oferta de laminado a quente no Espírito Santo, com a planta de galvanizado, porém compensa com a laminadora do Ceará. O objetivo será continuar vendendo para consumidores no País e clientes de países da América do Sul, tanto bobinas a quente quanto placas.
Com o tarifaço de Donald Trump no ano passado, que sobretaxou aços brasileiros (placas e laminados) em 50% desde junho de 2025, uma das empresas mais afetadas foi a ArcelorMittal. O Canadá deixou de comprar da empresa e as vendas ao mercado americano tiveram queda devido à maior competição com outros países que também foram afetados pelas medidas do presidente dos EUA, explica Oliveira.
Uma alternativa foi direcionar embarques de placas para unidades da companhia na União Europeia. A região também impôs taxas de 50% para aços, mas ficaram isentas da sobretaxa as exportações dentro das cotas estipuladas pela UE.
“O mercado brasileiro sempre foi uma prioridade do grupo”, ressalta o executivo, de 63 anos e que assumiu o comando da subsidiária brasileira no início de 2025. Hoje, os grandes investimentos da ArcelorMittal no mundo estão na Índia, Estados Unidos e no Brasil.
“Nossa estratégia aqui é de longo prazo, tanto que nos últimos anos adquirimos empresas na ponta da cadeia produtiva”, diz, citando a Tekno (de pintura), Tuper S.A. (de tubos e processamento de aço) e Dânica (empresa catarinense especializada em sistemas termo isolantes).
No projeto previsto para o Ceará, a empresa destaca que a diversificação oferece maior agregação de valor, variedade do portfólio industrial e ampliação dos mercados atendidos. Diz ainda que “cria oportunidade para incorporar tecnologia inovadora na América Latina, permitindo um processo produtivo mais compacto e altamente eficiente em termos energéticos”.
Como estão Usiminas, Gerdau e CSN
A siderúrgica mineira Usiminas, controlada pela Ternium, divisão de aços planos e longos do grupo ítalo-argentino Techint, do empresário Paolo Rocca, começou um novo investimento, de R$ 1,7 bilhão, no complexo siderúrgico da companhia em Ipatinga, no Vale do Aço.
O foco é reconstruir a bateria 4 da coqueria 2 da usina, que foi desativada dois anos atrás. No local, a empresa fará a demolição da atual estrutura e a substituirá por uma nova unidade, que será munida de tecnologia moderna. Como o nome já diz, coquerias têm importância na preparação do coque, de carvão metalúrgico, que será lançado ao alto-forno para produção do aço.
O tempo da obra estimado, até a entrada em operação da nova bateria, é até 2029. A Usiminas prevê a criação de 800 empregos diretos durante esse período nessa obra. Esse investimento faz parte de um pacote em andamento no Centro Industrial de Ipatinga, que inclui reparo da bateria 3 da coqueria 2, nova planta de moagem e injeção de PCI (finos de carvão) e um novo gasômetro.
O grupo Gerdau está concluindo um ciclo de investimentos anunciados alguns anos atrás. Em novembro, vai inaugurar a expansão de produção de minério de ferro no Projeto Miguel Burnier, na região de Ouro Preto e Ouro Branco. A capacidade da mina, com aportes de R$ 3,2 bilhões, foi elevada a 5,5 milhões de toneladas por ano, e a maior parte do volume vai alimentar a usina de aço Ouro Branco. A diferença, para exportação.
A empresa também está concluindo o novo centro de reciclagem de aço, com custo de R$ 450 milhões, em Pindamonhangaba. O centro será voltado ao processamento de novos tipos de sucata usada na usina local de aços especiais.
O foco de investimentos da Gerdau, nos últimos anos, tem sido expandir suas operações de aços longos e aços especiais nos Estados Unidos. A rentabilidade do negócio controlado pela família Gerdau tem sido maior nas operações americanas, onde o grupo investiu US$ 1,2 bilhão em cinco anos em três siderúrgicas.
A CSN, quarta maior produtora de aço do País, anunciou no início de 2025 a necessidade de expressivos investimentos na sua usina de aço de Volta Redonda (RJ) para reconstrução de equipamentos e instalações antigas, com problemas de operação e produtividade, e para atualização tecnológica.
Diante da crise financeira, com alta alavancagem (dívida líquida de R$ 42 bilhões), a empresa, no início deste ano, anunciou plano de buscar parceiros para fazer frente ao pacote de investimentos na siderúrgica. O montante estimado, até 2028, na modernização da Usina Presidente Vargas (UPV), anunciado há quase dois anos, somava R$ 8 bilhões.
Brasil Mineral - SP 19/10/2026
Gestora passa a deter cerca de 5,04% das ações preferenciais da siderúrgica, além de derivativos equivalentes a 1,52%, com objetivo declarado estritamente de investimento.
A BlackRock, Inc. adquiriu ações preferenciais de emissão da Usiminas e passou a deter 27.604.517 ações preferenciais e 5.918 American Depositary Receipts (ADRs), representando 5.918 ações preferenciais, totalizando 27.610.435 ações, ou aproximadamente 5,040% do total de ações preferenciais de emissão da companhia. A BlackRock passou a ter também 8.342.524 instrumentos financeiros derivativos referenciados em ações preferenciais com liquidação financeira, representando aproximadamente 1,523% do total de ações preferenciais de emissão da Usiminas.
O objetivo das participações societárias é estritamente de investimento, não objetivando alteração do controle acionário ou da estrutura administrativa da Usiminas. A BlackRock não detém debêntures conversíveis em ações emitidas pela companhia; e não firmou quaisquer contratos ou acordos que regulem o exercício de direito de voto ou a compra e venda de valores mobiliários emitidos pela Usiminas.
Infomoney - SP 19/10/2026
A proximidade da temporada de resultados do terceiro trimestre levou bancos de investimento a adotarem uma postura mais cautelosa com o setor de aço e mineração no Brasil. Em relatório divulgado antes dos balanços, o Goldman Sachs reduziu projeções e preços-alvo de parte das empresas cobertas, citando a combinação de custos mais elevados, demanda ainda moderada e dificuldade de repassar aumentos de preços ao mercado doméstico. Já o Morgan Stanley avalia que o trimestre deve continuar mostrando pressão sobre margens da maior parte das siderúrgicas brasileiras.
A revisão mais significativa do Goldman foi para a Usiminas (USIM5), com o banco cortando suas estimativas de Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) em 12% para 2026 e em 34% para 2027, diante de preços mais baixos do aço e de custos mais elevados de matérias-primas. Apesar de manter recomendação de compra, o banco reduziu o preço-alvo da ação de R$ 10 para R$ 8,60. O Goldman também revisou para baixo suas estimativas para a CSN (CSNA3), reduzindo as projeções de Ebitda em 12% para 2026 e em 17% para 2027, além de cortar o preço-alvo de R$ 4,30 para R$ 4,00, mantendo recomendação de venda.
No caso da CSN Mineração (CMIN3), o banco cortou as estimativas de Ebitda em 24% para 2026 e em 11% para 2027, refletindo preços realizados mais fracos para o minério de ferro e custos maiores de frete. Ainda assim, elevou ligeiramente o preço-alvo, de R$ 3,80 para R$ 3,90, apoiado por uma visão mais construtiva para o minério a partir de 2027.
A exceção entre as empresas brasileiras cobertas pelo Goldman foi a Gerdau (GGBR4). Beneficiada pela forte exposição aos Estados Unidos, a companhia teve as projeções de Ebitda para 2027 e 2028 elevadas em 4% e 16%, respectivamente. Com isso, o banco aumentou o preço-alvo da ação de R$ 27 para R$ 29 e manteve recomendação neutra.
As estimativas para o terceiro trimestre refletem essa divergência, com o Goldman projetando crescimento de 10% no Ebitda da Gerdau frente ao trimestre anterior, para R$ 3,76 bilhões. Já a Usiminas deve registrar queda de 9%, para R$ 629 milhões. A expectativa para a CSN é de recuo de 31%, para R$ 1,92 bilhão, enquanto a CSN Mineração pode apresentar retração de 66%, para R$ 346 milhões.
A visão mais conservadora para os resultados também aparece nos relatórios do Morgan Stanley, em que o banco avalia que o terceiro trimestre deve evidenciar os efeitos da demanda doméstica ainda fraca, dos custos pressionados e de preços do aço insuficientes para compensar a alta das matérias-primas.
Na avaliação dos analistas, a Usiminas segue entre as empresas mais expostas à compressão de margens no curto prazo, enquanto a CSN continua enfrentando desafios simultâneos nos negócios de aço e mineração.
Por outro lado, a Gerdau permanece como a companhia mais defensiva do setor, segundo o Morgan Stanley, graças à sua relevante exposição ao mercado norte-americano, que continua oferecendo um ambiente mais favorável de preços e rentabilidade. O banco estima margens Ebitda ao redor de 19% para a companhia, acima das observadas nas demais siderúrgicas brasileiras.
Confira o calendário de resultados do 3º trimestre de 2026 da Bolsa brasileira
Apesar da cautela para o curto prazo, os bancos enxergam perspectivas mais favoráveis para 2027. Tanto Goldman quanto Morgan Stanley destacam que a redução das importações de aço, possíveis medidas antidumping contra produtos asiáticos e uma eventual recuperação gradual dos spreads domésticos podem melhorar o ambiente para o setor.
Nesse cenário, a Gerdau continua sendo apontada como a principal aposta defensiva, enquanto Usiminas e CSN dependeriam de uma recuperação mais consistente dos preços do aço para voltar a expandir rentabilidade.
O Estado de S.Paulo - SP 19/10/2026
O conjunto de propostas elaboradas pelo projeto Brasil Adiante pode ter um impacto relevante sobre a economia brasileira ao longo da próxima década. As medidas têm potencial para produzir um ganho para o Produto Interno Bruto de R$ 2,377 trilhões entre 2027 e 2036.
No cenário otimista, as propostas levariam a um ganho do PIB de R$ 3,954 trilhões no período. Já em um cenário conservador, o aumento seria mais modesto: R$ 1,204 trilhão entre 2027 e 2036.
O potencial econômico das propostas foi calculado por Daniel Duque, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ibre) e do Núcleo de Estudos Raciais do Insper.
Com curadoria de Fábio Barbosa e apoio do Estadão, o projeto Brasil Adiante reuniu especialistas de diversas áreas em encontros realizados entre maio e agosto deste ano. As propostas foram consolidadas em um documento com medidas a serem implementadas nos primeiros 24 meses do próximo governo. As projeções de impacto econômico abrangem 11 áreas e consideram 56 medidas.
Para a construção de cenários, as áreas analisadas foram educação, saúde, segurança, meio ambiente, infraestrutura, governo digital, reforma do Judiciário, defesa nacional, política externa, governança política e Estado eficiente.
O levantamento considera tanto medidas que demandam recursos, como investimentos em infraestrutura e políticas de educação, quanto iniciativas capazes de gerar economia, como o aumento da eficiência do Estado.
“Boa parte do trabalho tem como base a pergunta: qual é o retorno desse gasto? A gente tem o retorno de determinada política, mas teria dinheiro para fazer essa política? É por isso que a gente precisa ter esses dois lados das políticas públicas: saber onde gastar, que é a questão da educação e da infraestrutura, mas também saber de onde tirar os recursos”, afirma Duque.
“No relatório, a gente junta medidas que liberam recursos e medidas que demandam recursos. Por exemplo, o Estado eficiente é uma das medidas que vai liberar recursos que podem ser transferidos para a infraestrutura”, afirma Duque.
Entre as propostas analisadas, as medidas abarcadas pelo Estado Eficiente poderiam gerar uma economia de R$ 1,11 trilhão até 2036, por meio de iniciativas como a revisão de despesas obrigatórias e de gastos tributários, o que tem um potencial para reduzir a dívida pública em 10,2 pontos porcentuais do PIB em relação ao cenário contrafactual, no qual as propostas não seriam implementadas.
Nos dez anos analisados pelo estudo, o benefício bruto das medidas é estimado em R$ 2,323 trilhões, o equivalente a um ganho per capita de R$ 10,5 mil acumulado na década, em valor presente. O valor é próximo ao ganho acumulado de PIB projetado para o período. O cálculo do PIB, porém, não engloba benefícios como a redução da mortalidade, os ganhos ambientais e a diminuição de riscos.
Do total dos benefícios brutos, 56% (R$ 1,305 trilhão) seriam apropriados por famílias e empresas, por meio de ganhos de renda, aumento dos lucros e melhora da produtividade, por exemplo. Os R$ 1,018 trilhão restantes beneficiariam o setor público e a sociedade em geral, com a economia de gastos e a preservação de vidas e da saúde.
As áreas de maior impacto
Em dez anos, o maior ganho líquido entre as áreas analisadas viria da infraestrutura, com R$ 359,1 bilhões. Os principais impactos nesse setor estariam relacionados ao setor de transportes, com medidas como a universalização do saneamento, a manutenção e a concessão de rodovias e melhorias nos portos e hidroportos.
Na sequência, aparecem a educação, com ganhos estimados em R$ 294,8 bilhões, impulsionados principalmente pela valorização e qualificação dos professores, e a saúde, com R$ 178,3 bilhões, associados ao fortalecimento da atenção primária e das redes regionais de atendimento.
Em um horizonte superior a dez anos, até 2050, a educação passaria a liderar, com um ganho líquido estimado em R$ 842,4 bilhões. Em seguida, surgem o setor de infraestrutura, com R$ 748 bilhões, e o de saúde, com R$ 243,1 bilhões.
“A conta vem muito de infraestrutura. Se a gente olha para além do PIB, o ganho de renda total também vem muito da educação, principalmente no longo prazo. Esses são os dois maiores ganhos, basicamente”, diz Duque. “A diferença é que a educação tem um ganho de mais longo prazo para a economia. No caso da infraestrutura, você aumenta a capacidade produtiva e gera um investimento logo no começo.”
Globo Online - RJ 19/10/2026
Os dois candidatos que disputam o segundo turno das eleições presidenciais contam com a queda dos juros para aliviar as contas públicas a partir de 2027, mas fatores fora do alcance de quem vencer no próximo dia 25 podem limitar esse movimento, pelo menos no que se refere à Taxa Selic. Choques de oferta, como o do petróleo, que continua acima de US$ 100 o barril, o El Niño, a crise da dívida dos EUA e da Europa, com déficits fiscais dos países ricos resultando em aumento de juros e a própria resiliência da economia brasileira devem manter a cautela do Banco Central (BC) na condução da taxa básica.
A autoridade monetária deve continuar a “calibragem” da Selic, mas a aceleração dos cortes só deve ocorrer com a apresentação de medidas fiscais que se traduzam em expectativas de inflação mais baixas e pressões menores no mercado de trabalho.
Em relação à curva de juros, que teve forte baixa após o 1º turno, economistas ouvidos pelo GLOBO avaliam que a direção só deve ser mantida se a aposta em uma gestão mais fiscalista, com medidas concretas de corte de gastos e não só promessas, se torne realidade.
No caso da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o ministro da Fazenda, Dario Durigan, tem dito que a redução dos juros é a “última milha” para o equilíbrio das contas públicas e que o governo, caso reeleito, fará sua parte, reforçando o ajuste fiscal, para alcançar o objetivo.
Já a equipe do senador Flávio Bolsonaro (PL) aposta que o prometido ajuste fiscal de 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro ano de um eventual governo poderia levar a um ajuste na curva de juros de 2,5 pontos percentuais. Em entrevista ao GLOBO, a coordenadora econômica da campanha, Daniella Marques, disse que 1 ponto percentual na curva pode significar R$ 100 bilhões de despesa com juros da dívida.
Entrega fiscal concreta
A promessa de ajuste fiscal de Flávio de R$ 200 bilhões no eventual primeiro ano de governo inclui redução de encargos com pagamento de juros, mas, se a premissa não se confirmar, ficaria mais difícil alcançar um corte dessa magnitude.
A dívida bruta, que engloba governo federal, estados e municípios, chegou a R$ 11 trilhões ou 82,9% do PIB em agosto. Já a dívida pública federal, que se restringe apenas à União, atingiu R$ 9,3 trilhões em agosto, dos quais quase 53% respondem a variações da Selic. Pelas contas do BC, a sensibilidade da dívida bruta a cada 1 ponto percentual de redução da Selic é de 0,49% do PIB, ou R$ 65,8 bilhões.
Atualmente, a taxa está em 13,75% ao ano, depois de cinco reduções seguidas de 0,25 ponto, e o Comitê de Política Monetária (Copom) volta a se reunir em 3 e 4 de novembro, na primeira decisão após a eleição. Pelo Boletim Focus, a Selic termina este ano em 13,25% e o ano que vem em 12%, com a continuidade da estratégia de redução gradual.
Após o resultado do 1º turno, em que Flávio terminou na frente, o mercado financeiro começou a discutir a possibilidade de o BC acelerar os cortes de juros devido à crença dos analistas ligados à Faria Lima de que há mais chances de o candidato da oposição promover um ajuste fiscal robusto em comparação a Lula.
Isso se traduziu em forte reprecificação nos ativos brasileiros. A taxa do juro futuro com prazo de dois anos caiu 1,1 ponto percentual. Na semana, a queda foi de 1,43 ponto percentual. Os cálculos são do chefe de estratégia macro e dívida pública da Warren Investimentos, Luis Felipe Vital. Em relação ao prazo de dez anos, a redução foi de 1,34 ponto percentual e de 1,8 ponto percentual nas duas comparações.
Nas contas da Warren, a reprecificação dos ativos locais após o primeiro turno foi uma das mais intensas do mercado brasileiro desde 2008.
Nos últimos dias, porém, a Bolsa devolveu parte dos ganhos e o dólar voltou a ficar acima de R$ 5 diante da perspectiva de disputa mais acirrada no segundo turno e de sinalizações contraditórias do candidato do PL, que se comprometeu a manter políticas sociais e a reajustar o salário mínimo sem explicar como isso seria compatível com o ajuste de R$ 200 bilhões.
Para parte dos analistas, a leitura é de um ajuste fiscal menos intenso do que as promessas anteriores.
Em conversas privadas às margens do encontro anual do Fundo Monetário Internacional (FMI), que acontece em Bangcoc, o diretor de Política Econômica do BC, Paulo Picchetti, sinalizou que a autoridade monetária só deve responder a entregas fiscais concretas e não a expectativas do mercado sobre isso, de acordo com o relato do chefe global de estratégia do Citi, Dirk Willer.
“O BC pensa, baseado na História, que é melhor esperar até ver a entrega efetiva de reformas fiscais e seus potenciais efeitos desinflacionários, em vez de reagir à antecipação do mercado a isso. Afinal de contas, a História mostrou como governos eleitos podem se comprometer com a disciplina fiscal e não cumprirem”, disse, em relatório.
Willer disse que o BC manteve tom cauteloso, embora veja espaço para “flexibilização calibrada”, porque enxerga riscos de alta para as taxas neutras globais, choques de oferta persistentes, como a guerra e o El Niño, que podem gerar efeitos de segunda ordem, e um elevado volume de investimentos pressionando rendimentos dos títulos globais.
E destacou que, apesar da desaceleração da atividade, o mercado de trabalho não apresenta folga, pressionando a inflação de serviços, e as expectativas de inflação estão distantes da meta de 3%.
‘Mundo mais inflacionário’
No front externo, outro fator de atenção para o BC é o aumento dos déficits fiscais nas grandes economias desenvolvidas, como EUA, França e Reino Unido. Isso está elevando o rendimento dos títulos soberanos de longo prazo desses países e pressionando os juros globais. Nesse cenário, mercados emergentes como o Brasil enfrentam dificuldade maior para reduzir taxas, pois precisam manter um diferencial atrativo de juros para evitar a saída de capitais.
O próprio Copom projeta inflação de 3,9% para 2027 e diz que o tamanho total do ciclo de cortes vai depender de novas informações.
Leonardo França Costa, economista do ASA, destaca que o cenário de inflação para 2027 não será fácil, com continuidade de parte dos choques do petróleo e do El Niño. No caso dos preços de alimentos, a expectativa é que comecem o ano pressionados em virtude de efeitos sazonais e do fenômeno climático, que deve durar até meados de 2027.
O economista cita outros riscos para o início do ano que vem, como os impactos nos custos trabalhistas devido ao fim da escala 6x1, principalmente no setor de serviços, e a implementação da Reforma Tributária do consumo. Além disso, é possível que se inicie uma reversão dos subsídios dos combustíveis.
— A inflação de 2027 seguirá pressionada, com a necessidade de recomposição de imposto nos combustíveis, pela possibilidade de novos reajustes no diesel, pelo choque corrente do El Niño e pela resistência da inflação de serviços. Mas vale ressaltar o risco de baixa em uma eventual desaceleração mais célere da economia doméstica no caso de um ajuste fiscal, que poderia colaborar para a reaproximação das expectativas de inflação à meta de 3% — disse ele, que espera que o IPCA fique em 4,5% no ano que vem.
Os economistas consultados pelo GLOBO, não veem espaço para uma aceleração do ritmo de cortes ainda este ano. Para Carlos Kawall, sócio-fundador da Oriz Partners e ex-secretário do Tesouro Nacional, a questão é mais sobre a continuidade ou não do corte de juros pelo BC, que deve se manter em um cenário de vitória de Flávio, dadas as apostas de que o candidato do PL pode entregar ajuste fiscal mais robusto. Caso contrário, a depender da reação do câmbio à reeleição de Lula, o BC pode ter de interromper o ciclo de alívio da Selic.
— Não acho que haja espaço para acelerar o ritmo de queda este ano. O que o resultado da eleição pode determinar é a continuidade ou não do ciclo — disse, citando que reduções maiores só devem ocorrer após anúncios de medidas fiscais e sinais mais claros nos condicionantes da inflação.
A diretora de Macroeconomia para o Brasil no UBS Global Wealth Management, Solange Srour, diz que é desejável que o BC seja cauteloso, como ocorreu em 2016, sob a presidência de Ilan Goldfajn, para que a queda seja sustentável. Ela lembra que o ambiente internacional é mais inflacionário e de juros mais altos, o que vai na direção contrária de cortes de juros aqui:
— O BC só vai cortar juros se tiver um baita esforço fiscal, é um mundo mais inflacionário e de juros mais altos.
Sinais de alerta para a taxa Selic
Impacto do fenômeno climático El Niño nos preços de alimentos
No Brasil, o fenômeno climático pode alterar regimes de chuvas e provocar mudanças na temperatura,com impacto que varia de acordo com a intensidade do episódio. O consumidor pode sentir efeitos nos preços de frutas, hortaliças e carnes.
Cotação do petróleo acima de US$ 100 o barril
As restrições no trânsito do Estreito de Ormuz e os ataques a navios que tentam fazer o trajeto contribuem para manter a cotação do Brent acima de US$ 100. O efeito é de pressão sobre preços de combustíveis, o que tem sido atenuado por subsídios.
Crise da dívida nos EUA e na Europa pressiona juros
O aumento de déficits fiscais em economias desenvolvidas, como Estados Unidos, França e Reino Unido, eleva o rendimento dos títulos soberanos de longo prazo destes países e pressiona os juros globais. Para emergentes, fica mais difícil reduzir a taxa.
Resiliência da economia brasileira também interfere
Na avaliação dos especialistas, a resiliência da economia brasileira é um entrave. O BC só deve acelerar cortes da Selic diante de medidas fiscais concretas que se traduzam em expectativas de inflação e pressões menores no mercado de trabalho.
O Estado de S.Paulo - SP 19/10/2026
O calendário econômico de 19 a 23 de outubro tem como destaque uma nova leitura da inflação brasileira na reta final antes do segundo turno das eleições. Na sexta-feira (23), será divulgado o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de outubro, considerado a prévia da inflação oficial. O dado chega após o IPCA subir 0,82% em setembro, a maior alta mensal de 2026 até então.
O indicador será divulgado no último pregão antes do segundo turno das eleições, marcado para domingo (25). Até lá, a agenda doméstica terá poucos destaques. O Boletim Focus e o Índice Geral de Preços – 10 (IGP-10) abrem a semana na segunda-feira (19), e o Conselho Monetário Nacional (CMN) se reúne na quinta-feira (22).
Nos Estados Unidos, o calendário se espalha por indicadores de habitação, mercado de trabalho e atividade. A semana começa com dados sobre construção de novas moradias e termina com os Índices de Gerentes de Compras (PMIs, na sigla em inglês) de outubro e a leitura final da confiança do consumidor medida pela Universidade de Michigan.
Confira a agenda da semana.
Segunda-feira, 19 de outubro
A semana brasileira começa com duas leituras diferentes sobre preços e expectativas.
O Banco Central divulga o Boletim Focus, relatório semanal que reúne as medianas das projeções de instituições do mercado para inflação, Produto Interno Bruto (PIB), taxa Selic, câmbio e outros indicadores. As estimativas são dos participantes da pesquisa e não representam projeções do próprio BC. A divulgação está confirmada para segunda-feira.
A Fundação Getulio Vargas (FGV) apresenta o IGP-10 de outubro. O Índice Geral de Preços – 10 combina três componentes que acompanham preços ao produtor, ao consumidor e na construção civil. O número 10 faz referência ao período de coleta utilizado para formar o indicador.
Em setembro, o IGP-10 havia avançado 1,47%, depois de recuar 0,51% em agosto. A tabela enviada arredonda a leitura anterior para 1,5%, mas o resultado oficial da FGV foi de 1,47%. A divulgação de outubro está marcada para 19 de outubro.
A FGV também publica na segunda-feira o Monitor do PIB referente a agosto, indicador que procura acompanhar mensalmente o comportamento da atividade econômica a partir de informações semelhantes às utilizadas nas contas nacionais. A divulgação consta no calendário oficial da instituição.
Na China, o Banco Popular da China anuncia as Loan Prime Rates (LPRs), taxas preferenciais de empréstimos utilizadas como referência para diferentes operações de crédito no país. A LPR de um ano influencia principalmente empréstimos corporativos e às famílias, enquanto a de cinco anos tem ligação maior com o financiamento imobiliário.
Terça-feira, 20 de outubro
O setor imobiliário americano ocupa a terça-feira.
O Census Bureau divulga os dados de início de construção de novas moradias e de licenças para construção referentes a setembro. O primeiro indicador contabiliza projetos residenciais cuja construção efetivamente começou; o segundo acompanha as autorizações concedidas e, por isso, pode oferecer uma indicação sobre a oferta futura de imóveis.
Em agosto, o início de novas construções havia recuado 2,6% frente a julho, para uma taxa anualizada de 1,275 milhão de unidades. O resultado de setembro está oficialmente programado para 20 de outubro.
Também está prevista a divulgação das vendas pendentes de imóveis, que acompanham contratos assinados para casas existentes cuja transação ainda não foi concluída.
A ADP apresenta ainda sua atualização semanal sobre emprego no setor privado americano. A ADP é uma empresa de processamento de folhas de pagamento e utiliza sua própria base de dados para acompanhar mudanças no mercado de trabalho.
Quarta-feira, 21 de outubro
A inflação britânica divide a quarta-feira com uma agenda mais discreta no Brasil e nos Estados Unidos.
O Office for National Statistics (ONS, escritório de estatísticas do Reino Unido) publica o Índice de Preços ao Consumidor de setembro. A divulgação está oficialmente marcada para 21 de outubro.
Nos Estados Unidos, a Energy Information Administration (EIA, Administração de Informação de Energia) divulga seu relatório semanal de estoques de petróleo bruto, incluindo os estoques no centro de armazenamento de Cushing, em Oklahoma.
No Brasil, o Banco Central apresenta o fluxo cambial, estatística que registra entradas e saídas de moeda estrangeira por operações comerciais e financeiras.
Quinta-feira, 22 de outubro
O CMN se reúne na quinta-feira. O órgão é responsável por formular diretrizes gerais das políticas monetária, creditícia e cambial do País e é composto pelos ministros da Fazenda e do Planejamento e pelo presidente do Banco Central.
O calendário oficial do BC confirma para 22 de outubro a reunião do CMN, precedida pela reunião da Comissão Técnica da Moeda e do Crédito (Comoc) na quarta-feira.
Nos Estados Unidos, saem os pedidos semanais de seguro-desemprego. Os pedidos iniciais contabilizam pessoas que solicitaram o benefício pela primeira vez, enquanto os pedidos contínuos mostram quantos trabalhadores seguem recebendo o auxílio.
O Conference Board publica ainda o Leading Economic Index (LEI) de setembro. O indicador antecedente combina dez séries econômicas, entre elas pedidos de seguro-desemprego, novas encomendas, licenças para construção, preços de ações e expectativas dos consumidores, com o objetivo de identificar possíveis mudanças de direção do ciclo econômico. A divulgação está confirmada para quinta-feira.
Sexta-feira, 23 de outubro
A sexta-feira concentra o principal indicador brasileiro da semana.
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulga o IPCA-15 de outubro, índice que utiliza metodologia semelhante à do IPCA, mas possui período de coleta e abrangência geográfica diferentes. Para a leitura de outubro, os preços foram coletados entre 16 de setembro e 14 de outubro.
Em setembro, o IPCA-15 havia avançado 0,70%, depois de queda de 0,40% em agosto. Em 12 meses, a alta chegou a 4,47%. Esses números correspondem à leitura anterior e não a projeções para outubro.
O resultado ganha uma referência adicional depois do IPCA cheio de setembro, divulgado na semana anterior, ter acelerado para 0,82% no mês e 4,58% em 12 meses. O IPCA-15 será, portanto, a primeira leitura ampla a avançar para o comportamento dos preços em outubro.
Nos Estados Unidos, a S&P Global divulga as leituras preliminares de outubro dos PMIs Industrial, de Serviços e Composto. Os índices são construídos a partir de pesquisas com empresas e procuram identificar mudanças na atividade em relação ao mês anterior. Resultados superiores a 50 pontos indicam expansão; abaixo desse nível, contração.
Em setembro, o PMI Composto preliminar americano havia alcançado 58,4 pontos, maior nível em mais de cinco anos, em uma combinação de avanço dos serviços e da indústria.
A Universidade de Michigan publica ainda a leitura final de outubro de sua pesquisa de confiança do consumidor. Na estimativa preliminar, o índice caiu de 48,1 pontos em setembro para 46,3 pontos em outubro. O levantamento também acompanha as expectativas das famílias para a inflação nos horizontes de curto e longo prazo. A própria universidade confirma a leitura final para 23 de outubro.
A Baker Hughes encerra a agenda com a contagem semanal de sondas de petróleo e gás em operação nos Estados Unidos, utilizada para acompanhar o nível de atividade de perfuração da indústria de energia.
O Estado de S.Paulo - SP 19/10/2026
O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), considerado uma prévia do Produto Interno Bruto (PIB), subiu 0,34% em agosto, na comparação com julho, na série com ajuste sazonal, informou a autoridade monetária nesta sexta-feira, 16. Em julho, o indicador havia caído 0,31% (revisado, de -0,22%).
O avanço em agosto foi mais intenso do que o previsto pela mediana da pesquisa Projeções Broadcast, de 0,12%. As estimativas do mercado iam de queda de 0,30% a alta de 0,70%.
No mês, o índice ex-agropecuária, que exclui os efeitos do setor da conta, subiu 0,33%, após queda de 0,30% no mês anterior (revisado, de -0,13%). O indicador próprio da agropecuária, por outro lado, recuou 1,76%, depois de ter caído 0,40% (revisado, de -1,15%) em julho.
O índice de serviços subiu 0,24% após ter caído 0,18% no mês anterior (revisado, de -0,01%); o da indústria avançou 0,87%, após ter recuado 0,64% (revisado de -0,40%) em julho; e o de impostos — equivalente, em linhas gerais, à rubrica de impostos líquidos sobre produtos do PIB — subiu 0,11%, após cair 0,18% (revisado de -0,16%) no mês anterior.
Interanual
Na comparação com agosto de 2025, o IBC-Br total cresceu 1,21% na série sem ajuste sazonal — acima da mediana da pesquisa Projeções Broadcast, de 1,00%. As estimativas do mercado iam de queda de 0,20% a aumento de 1,80%.
O índice ex-agropecuária cresceu 0,91% na comparação interanual, após alta de mesma magnitude no mês anterior (revisado de 0,99%). O da agropecuária subiu 5,76%, após alta de 4,77% (revisado de 3,69%) em julho.
O indicador de serviços avançou 1,29%, após alta de 1,23% (revisado de 1,26%) no mês anterior. O índice da indústria cresceu 0,36%, depois de ter subido 0,16% (revisado de 0,47%). O índice de impostos aumentou 0,35%, após avançar 0,80% (revisado de 0,75%) em julho.
Índice total sobe 1,61% em um ano
O IBC-Br acumula alta de 1,61% nos 12 meses encerrados em agosto, na série sem ajuste sazonal, informou a autarquia nesta sexta-feira. É uma ligeira aceleração frente ao mesmo período até julho, quando a alta era de 1,53% (revisado, de 1,48%).
O índice ex-agropecuária cresce 1,59%. Em julho, avançava 1,52% (revisado, de 1,48%). O indicador da agropecuária acumula alta de 2,73% nos 12 meses até julho, contra 2,69% (revisado, de 2,25%) no mesmo período até o mês anterior.
Também em 12 meses, a taxa acumulada pelo IBC-Br da indústria passou de 0,63% (revisado, de 0,65%) para 0,75%. O índice de serviços passou de 1,99% (revisado, de 1,93%) para 2,03%. O indicador de impostos passou de 0,76% (revisado, de 0,74%) para 0,94%.
No acumulado de janeiro a agosto de 2026, o IBC-Br total cresce 1,55% frente ao mesmo período de 2025. O índice ex-agropecuária avança 1,56%, enquanto o indicador do agro sobe 2,33%. O índice da indústria aumenta 0,62%, o de serviços sobe 2,01% e o de impostos avança 1,05%.
Trimestre
O IBC-Br total caiu 0,64% no trimestre móvel encerrado em agosto, na série com ajuste sazonal e na comparação com os três meses anteriores. O índice ex-agro recuou 0,72% e o específico do agro 0,22%. A indústria caiu 1,21%, os serviços diminuíram 0,28% e os impostos recuaram 1,09%.
Considerando o trimestre até agosto, mas frente ao mesmo período de 2025 e na série sem ajuste sazonal, o IBC-Br total cresceu 1,63%. O índice ex-agropecuária teve alta de 1,40%, enquanto o específico do agro subiu 5,16%. O índice de serviços subiu 1,68%, o da indústria aumentou 0,74% e o de impostos avançou 1,29%.
Globo Online - RJ 19/10/2026
A meta fiscal para 2027 é inegociável, e o governo Lula não pretende alterar as regras fiscais nem a trajetória de resultado prevista na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2027, disse ao GLOBO o ministro do Planejamento, Bruno Moretti. O titular da pasta afirmou que, caso seja necessário, o governo poderá até trabalhar com despesas abaixo do limite de gastos, no cenário de eventual reeleição do presidente.
A orientação, segundo ele, é seguir com o processo de consolidação fiscal gradual nos próximos anos, preservando os serviços públicos, mas caminhando na direção de um superávit de 1,5% do PIB em 2030. Moretti também pontuou que a promessa de tarifa zero aos fins de semana não terá custo superior a R$ 12 bilhões e será neutra fiscalmente. O ministro tem sido mais ativo nas últimas semanas no embate político-eleitoral com a oposição e busca manter as indicações de ajuste gradual das contas públicas, a despeito das promessas de maiores gastos do governo.
O senhor tem negado que haja caráter eleitoreiro nas medidas que o governo tem adotado. Mas por que tantas medidas foram tomadas ou entraram em vigor só em 2026?
Se você parte da premissa de que atender a demandas legítimas de segmentos da população, trabalhadores, segmentos vulneráveis, com renda média baixa, para os quais o Estado não desenvolveu qualquer política pública é errado, desculpa, o que nós temos, em última instância, é uma visão oposta sobre o que o Estado deve fazer. Primeiro que as políticas não são só em 2026. O programa de reforma, por exemplo, começou no final do ano passado e vem de uma longa discussão. O programa dos carros vem de uma longa discussão. Agora, são políticas inovadoras, que procuram atender a demandas que até então não eram atendidas pelo Estado e que precisaram ser articuladas. O ideal, do ponto de vista de produzir os efeitos que a gente esperava, é que elas fossem implementadas antes. Agora, é preciso um tempo para maturar, para planejar essas políticas.
Por exemplo, (a linha para) caminhões, que começou mais cedo, no Move Brasil 1. O segmento estava sofrendo os efeitos muito duros da Selic alta, conversamos com a Anfavea, e o que aconteceu foi que aquilo evitou uma queda mais abrupta da indústria de veículos pesados, sem gerar qualquer tipo de inflação e estimulando um processo de aumento de bens de capital. O próprio setor veio demandar o Move 2 e a gente implementou porque aquilo tem um efeito para a indústria. O Estado brasileiro nunca havia conseguido alcançar os caminhoneiros autônomos como fez nessa versão e financiamos R$ 1,5 bilhão para caminhoneiros autônomos. Isso não tem a ver com viés eleitoral, isso tem a ver com o processo de mitigar a queda dessa indústria.
Leva tempo para estruturar isso. Não foi para fazer qualquer tipo de estímulo artificial de demanda ou se gastar acima do que deveria. Estamos falando de caminhoneiro autônomo, de motoboy, de motorista aplicativo. Eu não consigo atribuir a isso um caráter reeleitoreiro, porque tem mérito e é compatível com a nossa realidade fiscal. E o subsídio implícito, repito, é muito menor do que o que está se falando. E os críticos omitem absolutamente os efeitos econômicos. Por sinal, há um crítico conhecido aí que diz o seguinte, essas linhas são inflacionárias, com efeito multiplicador muito baixo. Eu acho que faltei a essa aula de economia em que o que o governo faz não produz efeito, mas tem efeito.
Mas é inegável que nesse período de um mês, desde a metade de setembro até agora, os anúncios vêm se acumulando, o Bolsa Família, o próprio Desenrola 3, as medidas de MEI e a questão da tarifa social de transporte público. O timing dessas medidas não é eleitoreiro?
O presidente Lula tem um mandato que se conclui nesse ano e ele está pleiteando um novo mandato junto à população. A gente precisa separar aqui o que é campanha do que é governo. Do ponto de vista do que é prometido para o ano que vem, como orçamento é algo que remete aos exercícios seguintes, eu preciso ser consultado sempre, assim como o Ministério da Fazenda, sobre a viabilidade. Há muita incompreensão sobre o que está sendo anunciado e os efeitos disso sobre o orçamento. Os ajustes necessários frente ao que foi anunciado para o orçamento significam menos do que 2% do volume total de despesa e receita que está na LOA. O ajuste é na margem. Produzir essa imagem de que o orçamento de 2027 requer uma reestruturação completa não faz o menor sentido.
O discurso da reestruturação foi feito aparentemente no mercado a portas fechadas por representantes da oposição, quando disseram que iam cortar R$ 200 bilhões de reais. Aí, realmente, se desfiguraria o orçamento por completo. A saída que o candidato usou foi falar que o corte era nos juros, não sei se é uma incompreensão, um erro intencional.
Nós temos ajustes a fazer no orçamento que significam pouco mais de 1% do total do orçamento. O orçamento, ano que vem, preserva políticas públicas essenciais da população, o gás do povo, farmácia popular, etc, e continuamos mantendo a perspectiva de que vamos entregar um orçamento superavitário. O primeiro ponto é que o impacto (das medidas adotadas) sobre a despesa é nulo porque eu vou manter a despesa no limite do arcabouço fiscal. Não tem uma situação como eu encontrei no projeto de lei de orçamentária de 2023, em que ele estava todo desfigurado e não tinha dinheiro para pagar o Bolsa Família, para fazer a valorização do salário mínimo acima da inflação, tinha corte de 60% em farmácia popular, de quase 100% em manutenção e investimento em creche, entre outras coisas. Nós estamos com o orçamento absolutamente estruturado para atender as políticas públicas prioritárias para a população no ano que vem.
Mas tem a questão da campanha. O presidente está pleiteando junto à população um novo mandato e ele interage com a demanda da população. Dialogando, ele está dizendo, “olha, o meu programa de governo vai incluir determinados tópicos, que são esses aí que representam menos de 2% do total do orçamento. Estou falando de ajuste da margem.
Mesmo no caso do Bolsa Família?
Houve uma projeção de crescimento menor da despesa obrigatória. Esse espaço a gente canalizou uma parcela dele para o Bolsa Família. Se eu não canalizasse, eu teria que liberar o recurso, inclusive para a emenda parlamentar. Em 2027, ele tem um efeito também, mais ou menos de R$ 22 bilhões que eu preciso acomodar e vou fazê-lo tão logo o designe relator do orçamento
O segundo ponto é que essa nova projeção das despesas obrigatórias no relatório para 2026 é a base para o orçamento de 2027. Então, vou ter alguma redução de despesa obrigatória projetada para 2027. Estou garantindo o reajuste pela inflação para que as famílias mais vulneráveis do Brasil não percam o poder de compra. É bem razoável isso.
Mas não foi só o Bolsa Família...
Uma parte é despesa discricionária e isso se faz com remanejamento entre despesas, é escolha alocativa, em vez de a gente, por exemplo, inventar um estado de emergência para justificar uma PEC para criar beneficiário eleitoral. Nós não criamos benefício em ano eleitoral, não desrespeitamos regra fiscal para criar benefício, nem nada.
A tarifa zero não está sendo criada em período eleitoral?
O que o presidente pode fazer como candidato é se comprometer com isso, que, de novo, é um anseio da população, da juventude, de que ela tenha direito ao lazer, à mobilidade urbana. Então, é uma pauta muito legítima. Eu não posso ver como eleitoreira uma pauta que tem mérito. Com muito respeito ao Congresso Nacional, ele está dizendo o seguinte: que a gente destine parcela dos R$ 44,8 bilhões de emendas para um pleito da população brasileira, o passe-livre, pelo menos aos fins de semana e feriados. A política em si, ele não pode criar em período eleitoral.
Mas vocês anunciaram que vão enviar uma PEC agora...
Nós estamos ainda discutindo valores exatos para que a gente encaminhe a PEC ao Congresso na semana que vem. A PEC trata de alocação orçamentária de emenda e não de criar um programa de mobilidade, entende? Um percentual (das emendas) deve ser destinado, nós estamos fechando esse valor.
E de quanto seria esse valor?
Pode ficar nessa faixa de R$ 5 a 12 bilhões que vocês noticiaram. Queremos mostrar que a fonte seria essa para garantir a neutralidade fiscal da medida.
O senhor acha que o Congresso vai aceitar isso?
É legítimo que o Congresso coloque questões. Esse processo atende a uma demanda legítima da população. O Congresso Nacional tem sido um grande parceiro do governo. A premissa é a neutralidade fiscal. Se eu fiz um orçamento, tenho uma meta de resultado primário, qualquer despesa ou renúncia tem que ser compatível com essa meta.
Falando das medidas, que também incluem renúncias de receitas, ainda mais em um contexto de desaceleração, o governo não vai acabar ajustando a meta?
A meta é inegociável. Então, se por acaso, ali na frente, se não houver volume de receita nós não podemos orçar a despesa no limite. Não vamos de jeito nenhum (mandar mensagem modificativa da meta). É um compromisso, claro. Em hipótese alguma (mudaremos), o nosso ajuste é na receita e na despesa, olhando a grade (de parâmetros).
Tem alguma perspectiva de colocar na LDO que vai mirar no centro da meta na execução orçamentária?
A gente precisa dos instrumentos para que a gente entregue o resultado primário no centro da meta ano que vem, ou pelo menos com o superávit primário, que a gente está projetando de 0,1% do PIB. Esse é o nosso compromisso.
Na campanha, ao mercado, o governo chegou a dar sinalizações ao mercado de maior contenção no gasto. A dinâmica eleitoral levou para uma situação em que se está atendendo a demandas. Esse debate anterior morreu?
Não. O que a gente tem dito aqui é a reiteração do nosso compromisso com as nossas metas fiscais. A gente falou ontem para todo mundo ouvir que ano que vem ele espera um superávit maior, de 0,1% do PIB no orçamento. Eu estou aqui explicando a vocês, tentando demonstrar que as medidas para o ano que vem implicam ajustes na margem do orçamento. Estamos falando de 6, 7 bilhões de receita, já descontando o teto do MEI que está na PLOA, e de alguma coisa como R$ 20 bilhões, e que, portanto, isso não fere o nosso planejamento fiscal para o ano que vem. , especialmente pelo fato de que nosso volume de despesa está dado pelo limite, que nós não vamos mudar, temos o nosso compromisso de não alterar regras, de não buscar espaço fiscal.
Mas é preciso dizer, do outro lado, aí sim, há relatos de conversas fechadas no mercado de cortes de R$ 200 bilhões, há promessas de que não haverá esses cortes que aparentemente se prometem em reuniões fechadas e há promessas inclusive de que se vai ampliar isso, que se vai manter aquilo. E quando você aperta, diz-se que o corte é na despesa financeira, conforme eu já expliquei aqui, um processo de aparente desconhecimento absoluto do orçamento.
CNN Brasil - SP 19/10/2026
O boom da inteligência artificial está desencadeando uma corrida global por dinheiro, forçando os banqueiros centrais a contemplar um futuro em que as taxas de juros permaneçam altas e os governos precisem apertar os cintos após uma era de generosidade.
Desde chips de silício e centros de dados até redes elétricas e de telecomunicações, governos e empresas estão investindo pesado em projetos direta ou indiretamente ligados à IA, impulsionando a economia global e elevando os custos de empréstimo .
Banqueiros centrais das maiores economias do mundo, reunidos em Bangkok, afirmaram que o crescimento também está criando novas pressões inflacionárias e riscos financeiros, porque o investimento está chegando muito antes dos ganhos de produtividade prometidos pela IA.
"Se você é um banqueiro central... precisa reconhecer isso como um choque", disse o presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, nas reuniões anuais do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial em Bangkok. "Obviamente, está afetando o lado da demanda da economia antes de afetar o lado da oferta."
Warsh, que afirmou que os EUA estavam se beneficiando de uma crescente "onda de investimentos", alertou que a transição poderia ser "muito turbulenta", à medida que investidores, empresas e formuladores de políticas lidam com uma tecnologia cujos vencedores finais permanecem incertos.
Vários de seus colegas do grupo G20, que reúne as maiores economias do mundo, também presentes na capital tailandesa, afirmaram que uma ligeira reavaliação das perspectivas otimistas de lucros que sustentam os investimentos em IA seria suficiente para causar profundas turbulências no mercado, como demonstrou a queda nas ações de tecnologia asiáticas nesta semana.
Estrelas atrás das nuvens
O debate marca uma mudança notável em relação aos anos que se seguiram à crise financeira de 2008, quando os formuladores de políticas se preocupavam com o excesso de poupança global e com a inflação persistentemente baixa.
Agora, os banqueiros centrais veem cada vez mais o problema oposto: uma demanda excessiva por capital.
"Há uma disputa global por dinheiro", disse Martins Kazaks, membro do comitê de política monetária do BCE, à Reuters. "O investimento em IA é um dos principais fatores que elevam o custo do dinheiro."
Essa pressão está sendo amplificada por governos que vão dos Estados Unidos ao Japão e à Alemanha, que estão contraindo empréstimos vultosos para projetos de defesa, política industrial e energia.
Para os banqueiros centrais, a implicação é que o nível de taxas de juros necessário para manter as economias em equilíbrio, conhecido como R-estrela, pode estar aumentando.
"O problema atual no cálculo do raio estrelado (R-star) é que as estrelas estão encobertas por nuvens, e as nuvens são muito densas", disse Lesetja Kganyago, governador do Banco Central da África do Sul. "Sabemos que o raio estrelado está mais alto, mas não sabemos exatamente quanto."
Uma taxa neutra mais alta significa que o mesmo nível de taxa de juros é menos restritivo do que se pensava anteriormente.
"Talvez as taxas, em média, sejam um pouco mais altas", disse Huw Pill, economista-chefe do Banco da Inglaterra.
O Banco do Japão já citou a demanda relacionada à inteligência artificial como um fator por trás de seus recentes aumentos de juros, argumentando que as pressões inflacionárias impulsionadas por investimentos se tornaram mais amplas e persistentes.
Economistas esperam que o Banco da Inglaterra aumente as taxas de juros em sua próxima reunião, em 5 de novembro. O BCE e o Fed aumentaram as taxas em setembro, e os mercados já precificaram outra medida de ambos em dezembro.
Chega de dinheiro barato
A perspectiva de custos de empréstimo estruturalmente mais elevados representa um desafio para os governos que acumularam grandes dívidas durante anos em que as taxas de juros rondavam zero.
Os rendimentos dos títulos soberanos subiram em todo o mundo e, nas últimas semanas, alguns atingiram níveis não vistos desde antes da crise financeira global.
A zona do euro, e em particular a França, fortemente endividada , foi considerada especialmente vulnerável.
Grande parte do aumento de investimentos impulsionados por IA está ocorrendo nos Estados Unidos e, em menor escala, no Japão e em outras partes da Ásia, com a ASML e a Siemens entre as poucas vencedoras europeias evidentes.
Entretanto, o bloco enfrenta custos de energia mais elevados devido às guerras no Irã e na Ucrânia, o que agrava as pressões inflacionárias e aperta as finanças públicas.
"Existem circunstâncias particulares que levam alguns países a serem mais afetados, sendo a França um exemplo disso", disse a presidente do BCE, Christine Lagarde, em um evento da CNN em Bangkok.
"E para esse caso, a principal e primeira solução está em casa, na França. E tem a ver com políticas fiscais."
CNN Brasil - SP 19/10/2026
O minério de ferro enfrenta um momento de forte pressão, com os preços da commodity em trajetória de queda nos últimos dias. O contrato mais negociado para janeiro na DCE (Bolsa de Mercadorias de Dalian), na China, fechou o pregão em queda de 1,1%, a US$ 101,11 por tonelada, operando abaixo da marca dos 100 dólares em determinados momentos.
Ao mesmo tempo, o custo do frete marítimo para a China tem superado os 40 dólares, agravando ainda mais o cenário para as mineradoras brasileiras. Gustavo Roque, colunista do CNN Infra, avaliou que a situação, embora desafiadora, tem caráter cíclico.
"Para quem está acostumado com mineração e, sobretudo, com mineração de ferro, sabe que esses ciclos ocorrem há bastante tempo", afirmou.
Desafios logísticos e operacionais
Gustavo Roque destacou que as grandes mineradoras tendem a ser menos vulneráveis à pressão atual, pois muitas dispõem de portos e ferrovias próprios ou operam com contratos de longo prazo a custos reduzidos. O cenário mais crítico recai sobre as empresas de médio e pequeno porte, que precisam contratar serviços logísticos no mercado aberto, em concorrência com outras commodities.
"O desafio talvez esteja mais dentro de casa, daquilo que as mineradoras conseguem gerenciar", disse, referindo-se ao custo de produção, ao transporte interno e ao beneficiamento do minério.
Algumas empresas já estariam tomando medidas para mitigar os impactos. Gustavo Roque citou movimentos de criação de terminais logísticos como estratégia para reduzir custos de frete ainda no território nacional, antes do embarque nos portos.
"Vai ser um momento difícil, mas algumas mineradoras já estão se ajustando e outras talvez precisem se ajustar", pontuou.
Impacto em cascata sobre municípios e royalties
A redução das operações mineradoras pode gerar um efeito cascata significativo ao longo de toda a cadeia produtiva. Segundo Gustavo Roque, a queda no volume de produção implica redução no transporte, nos serviços diretamente conectados e no recolhimento da CFEM — os royalties pagos a municípios, estados e à União.
"Você vê que tem um efeito cascata muito grande", alertou.
Municípios altamente dependentes da mineração de médio e pequeno porte são os mais vulneráveis. Em alguns casos, os royalties gerados por uma única mineradora podem responder por 50%, 60% ou mais da receita municipal.
Roque defendeu a necessidade de diversificação econômica nessas localidades, com investimentos em turismo, agronegócio e serviços, de forma a reduzir a dependência de um único recurso mineral.
Questionado sobre eventuais reflexos da crise do minério de ferro sobre os investimentos em minerais críticos no Brasil, Gustavo Roque foi categórico ao separar os dois mercados.
"São dois mercados diferentes. A demanda por minerais críticos segue forte, sobretudo por cobre", afirmou. Ele ressaltou que países produtores como o Chile enfrentam dificuldades para manter a oferta, criando uma lacuna de mercado que favorece novos investimentos.
Para o minério de ferro, o colunista avaliou que pode haver uma desaceleração pontual, mas que mineradoras mais robustas e com capacidade de investimento tendem a aproveitar o momento para se preparar para o próximo ciclo de alta.
As empresas menores, no entanto, continuarão mais expostas, dependendo de serviços logísticos de terceiros e com menor margem de manobra diante da volatilidade dos preços.
Infomoney - SP 19/10/2026
Os preços do minério de ferro se recuperaram nesta sexta-feira, após atingirem mínimas de mais de dois anos no dia anterior, impulsionados por compras na baixa diante de sinais de melhora nas margens do setor siderúrgico e no consumo na China, principal mercado consumidor do produto.
O contrato de minério de ferro mais negociado na Bolsa de Mercadorias de Dalian na China fechou o pregão diurno com alta de 0,07%, a 672,5 iuanes (US$100,57) por tonelada, mas registrou uma perda semanal de 1,5%.
A referência de minério de ferro para novembro na Bolsa de Cingapura avançava 1,11%, a US$90,85 por tonelada, subindo 0,2% até o momento na semana.
O sentimento do mercado foi impulsionado por uma ligeira melhora na lucratividade das siderúrgicas, o que gerou uma onda de compras na baixa que levou a uma "recuperação técnica" temporária, afirmaram analistas.
Aproximadamente 8% das siderúrgicas chinesas operavam com lucro em 15 de outubro, contra 6,9% na semana anterior, segundo dados da consultoria Mysteel.
A queda na produção de metal quente, um indicador da demanda por minério de ferro, desacelerou, indicando que as siderúrgicas precisarão reabastecer seus estoques de matéria-prima, afirmaram analistas da corretora First Futures em nota.
No entanto, os riscos de queda persistiram, à medida que os estoques portuários aumentavam e as perspectivas de demanda se mostravam vulneráveis à baixa rentabilidade e a uma temporada de baixa demanda que se aproxima.
Valor - SP 19/10/2026
Novo presidente da filial brasileira diz que fabricantes tradicionais precisam adaptar um parque industrial que ‘não saiu do zero’.
A chegada das marcas chinesas impôs novo ritmo na indústria automobilística, principalmente no desenvolvimento e renovação de produtos. Para acompanhar essa velocidade, as montadoras tradicionais “têm que gastar muito mais dinheiro”, diz o novo presidente da Nissan do Brasil, Ricardo Gondo. “Porque não estão saindo do zero. Já têm suas fábricas e custos e precisam se adaptar à transformação”, destaca.
Gondo lembra que até a chegada dos chineses a indústria trabalhava para um novo modelo de carro ficar no mercado durante sete anos, com mais um “face lift” de três anos. Não só isso mudou. O desenvolvimento de um projeto, que levava três ou quatro anos, agora tem que sair em menos de 24 meses.
Gondo é um velho conhecido da comunidade automotiva. Formado em engenharia mecânica, o brasileiro carrega o conhecimento de uma carreira de quase 30 anos na Renault do Brasil, empresa da qual foi presidente até meados do ano passado.
Quando deixou a Renault parecia que nada além da aposentadoria estava nos seus planos. Mas, tomado pela paixão por automóveis, como diz, não resistiu voltar ao batente e há dois meses assumiu o comando da operação brasileira da Nissan do Brasil.
O jeito muito à vontade, com total domínio do repertório, com que Gondo conduziu sua primeira entrevista no novo cargo na sexta-feira, 16, não deixa dúvidas da sua experiência e traquejo no comando de uma empresa do setor automotivo. Mas, além da experiência no setor, outras razões deixam o engenheiro tranquilo diante dos novos desafios.
Primeiro, porque ele conhece a Nissan muito bem. Renault e Nissan firmaram uma aliança em 1999, três anos depois de Gondo começar a trabalhar na empresa francesa. Justamente quando ele assumiu a presidência da Renault do Brasil, em janeiro de 2019, a parceria passava por período crítico. Fazia só dois meses que o presidente global das duas montadoras, o brasileiro Carlos Ghosn, havia fugido do Japão, onde estava preso, suspeito de apropriação indevida de dinheiro da empresa asiática.
A experiência da aliança entre Renault e Nissan, que começou a ruir logo após a prisão de Ghosn, pode transformar Gondo em mais um executivo pronto para agora firmar parcerias com os chineses, como tem acontecido no setor.
No entanto, embora altos executivos da Nissan já tenham confirmado a existência de negociações entre a japonesa e a chinesa Dongfeng, sua parceira na China, para eventual acordo de uso compartilhado da fábrica da Nissan, em Resende (RJ), Gondo mostra-se afiado para driblar qualquer pergunta a respeito desse tema.
Segundo ele, tudo está em discussão. Desde parcerias com chineses e produção nos sistemas CKD (kits desmontados) ou SKD (carros importados semimontados) até o desenvolvimento de veículos eletrificados próprios. “Temos feito muitos estudos”, afirma. Ele admite, porém, a necessidade que toda a indústria tem de acelerar os projetos de eletrificação. “O mercado está indo nessa direção e está indo rápido. Temos que decidir rápido.”
Segundo ele, tudo dependerá da política industrial do próximo governo. Gondo espera, porém, que as regras privilegiem quem mais usa componentes produzidos localmente. Para ele, vender veículos com elevado conteúdo importado prejudica a cadeia de suprimentos nacional, como produtores de borracha, pneus e aço, que geram empregos e investimentos. “Precisamos de programas que incentivem carros produzidos no Brasil.”
A Nissan, que até setembro ficou com fatia de 3,21% das vendas de automóveis no país, optou por uma linha de produtos fabricados na América do Sul enxuta. A escolha por dois modelos - Kicks e Kait - fabricados em Resende deu certo e a montadora registra resultados acima da média da indústria.
De janeiro a setembro, a produção local aumentou 29,5% enquanto que a indústria de automóveis avançou 11,4% no mesmo período. Um dos principais motivos do aumento no ritmo de produção foi o avanço da venda dos produtos brasileiros nos mercados vizinhos. Até setembro as vendas da montadora no mercado externo cresceram 145%.
Assim, a operação brasileira da Nissan, que tinha pouca presença no mercado externo, agora exporta 22% do que produz na fábrica construída no sul-fluminense há 14 anos.
No próximo ano, a empresa começará a avançar no mercado de eletrificados. Gondo confirmou a estreia nesse segmento com um o SUV híbrido X-Trail, que será importado do Japão.
Com esse veículo, a Nissan também apresenta no Brasil a tecnologia e-power, sistema por meio do qual o carro é sempre movido por motor elétrico. O motor a combustão serve como gerador de energia. Gondo confirmou planos de desenvolver a tecnologia flex, que permite uso de etanol, em veículos com esse sistema.
Grandes Construções - SP 19/10/2026
O Produto Interno Bruto (PIB) da construção deverá crescer entre 0,5% e 1% em 2026, com desempenho superior ao projetado para 2025, 0,5%, e sustentado principalmente pelo segmento formal das construtoras.
A avaliação foi apresentada durante a Reunião de Conjuntura do SindusCon-SP, realizada no dia 14 de outubro.
Segundo a economista Ana Maria Castelo, coordenadora de Projetos da Construção do FGV Ibre, os indicadores mostram que a atividade segue aquecida no mercado formal. Nos primeiros oito meses do ano, o emprego com carteira assinada na construção cresceu 3% no Brasil, 2,4% no Estado de São Paulo e 3,3% na capital paulista.
Apesar da perspectiva positiva, o setor mantém preocupações relevantes para os próximos anos. A principal delas é a redução das fontes de crédito imobiliário para famílias de renda média.
Há uma preocupação com a queda dos recursos da poupança e a retração dos financiamentos com recursos livres podem dificultar a compra de imóveis fora do programa Minha Casa, Minha Vida.
Outro desafio é a escassez de mão de obra, apontada pelas empresas como a principal limitação aos negócios. Ao mesmo tempo, os custos da construção acumulam alta superior a 7% nos últimos 12 meses.
No mercado residencial, executivos do setor alertaram para a defasagem dos preços dos imóveis destinados à classe média. Com juros ainda elevados, o consumidor enfrenta dificuldades para a aquisição da casa própria, o que pressionará lançamentos e vendas.
Durante a reunião, representantes das construtoras demonstraram preocupação com uma possível desaceleração do mercado. Embora o ritmo de lançamentos ligados ao Minha Casa, Minha Vida continue crescendo, as vendas mostram sinais de perda de fôlego, o que poderá levar parte das empresas a reduzir novos projetos.
Para os especialistas reunidos pelo SindusCon-SP, a demanda por habitação permanece elevada no Brasil. E as vendas poderão ganhar impulso caso haja redução dos juros nos próximos anos.
A melhora das condições de crédito é vista como um dos principais fatores para acelerar o crescimento da construção civil e do mercado imobiliário.
Valor - SP 19/10/2026
Divulgação de dados operacionais aponta para lançamentos em queda e alta nos cancelamentos de vendas no segmento de baixa renda.
As prévias operacionais das incorporadoras, referentes ao terceiro trimestre, foram consideradas fracas por analistas que acompanham o setor. Os dados das empresas listadas em bolsa mostram retração nos lançamentos, na comparação com o mesmo período de 2025 e também no acumulado do ano. Mesmo o segmento de baixa renda, do programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV), que vinha segurando o volume de novos projetos, apresentou queda de 11,5% no trimestre e de 2,9% no acumulado do ano.
A baixa renda resiste com aumento de vendas, de 5,1% no trimestre e de 7,5% no ano, mas trouxe uma novidade: o crescimento dos distratos.
“Pela primeira vez, em muito tempo, vimos o distrato incomodando”, afirma André Mazini, chefe de análise do Citi. Diferentemente das incorporadoras de médio e alto padrão, que passaram por uma crise de distratos em 2015 e 2016, o segmento do MCMV não costuma sofrer com os cancelamentos, já que os contratos de financiamento são repassados para a Caixa Econômica Federal assim que o cliente fecha a compra, e não apenas na entrega das unidades.
A Tenda chegou a 19,5% de distratos sobre as vendas brutas, alta de 7 pontos percentuais em um ano. A Plano&Plano foi a 25,1%, ante apenas 8,2% um ano antes. Na Cury, os distratos atingiram 15% das vendas brutas, alta de 4 pontos sobre o mesmo período de 2025.
As incorporadoras explicam o aumento por uma mudança de critério de avaliação da Caixa, que estaria dificultando a aprovação de financiamentos no MCMV. Mazini concorda. “A Caixa mudou seu ‘modus operandi’, as entrevistas [para aprovação do financiamento] estão muito mais estritas”. Para ele, isso denota prudência por parte do banco. “Ela está sendo realmente como um banco deve ser, preocupada com a inadimplência, a qualidade da carteira”, afirma.
Para o especialista, embora a inadimplência da carteira de crédito imobiliário da Caixa esteja controlada, em 1,45%, há indicativo de que mais contratos estão passando por renegociação e extensão de prazo, o que justificaria a mudança.
Esse comportamento mais restritivo deve se manter nos próximos meses, mas se espera uma adaptação das equipes de venda das incorporadoras, de forma a selecionar clientes com mais chance de avançar nos critérios da Caixa, afirma Piero Trotta, analista de real estate do Citi. “Pode acontecer um ajuste na venda bruta, talvez venha um pouco menor, e aí o distrato vem um pouco menor. O que aconteceu no terceiro trimestre não deveria se repetir”.
A Caixa nega que houve mudanças em sua política. “A Caixa não identifica elementos que permitam associar eventuais distratos observados por incorporadoras e o desempenho dessas à estratégia de crédito do banco”, afirmou, em nota. “A aprovação de financiamentos sempre esteve condicionada ao atendimento dos critérios técnicos, regulatórios e de capacidade de pagamento aplicáveis a cada cliente” e seus resultados reforçam a “estratégia de crescimento sustentável do crédito imobiliário”, informou.
“Pela primeira vez, em muito tempo, nós vimos os distratos incomodando”
— André Mazini
Mesmo com esses entraves, a baixa renda continua atraindo empresas da média e alta renda, que já direcionam parte dos seus projetos ao programa, como Moura Dubeux, Lavvi, Eztec e Cyrela - que teve 44% do valor geral de venda (VGV) lançado do trimestre no MCMV, dentro da marca Vivaz, ante 27,5% há um ano.
Segundo Mazini, a proibição das bets deve ter efeito positivo. “Falamos com a Tenda logo após a proibição e tem ajudado, sobra mais dinheiro para pagar o financiamento imobiliário”, diz, destacando que a decisão, tomada no fim de setembro, não influenciou no trimestre.
As incorporadoras de média e alta renda também apresentaram resultados considerados fracos, mas ali não há efeito-surpresa. A velocidade de venda tem recuado e, para prevenir um aumento expressivo do estoque, as companhias seguram novos projetos. O volume de lançamentos caiu 32% no trimestre e 16% no acumulado do ano, enquanto as vendas recuaram 26% no trimestre e 8% nos nove meses até setembro.
Já o desempenho das companhias na bolsa é positivo, orientado pela expectativa com as eleições presidenciais. O índice Imob, que reúne ações da construção civil, tinha alta de 17,31% no último mês até sexta-feira (16). O crescimento veio concentrado após a dianteira de Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno.
“A dinâmica de preço do setor vai estar menos ligada ao operacional, pelo menos nos próximos meses, e muito mais ligada ao cenário macro, à questão eleitoral”, afirma Trotta.
Empresários e executivos do setor imobiliário estão otimistas com uma possível vitória de Flávio, apostando em um ajuste fiscal que reduziria juros, e em manutenção do MCMV. “O programa de habitação social está nos programas de governo dos dois candidatos”, diz Mazini.
Para ele, a Eztec foi a incorporadora com resultados melhores no segmento de média e alta renda no trimestre. A empresa fechou com o Itaú a locação total das duas torres corporativas que está terminando de construir, na Chucri Zaidan, em São Paulo, o que animou investidores. A expectativa é que a locação atraia o interesse de compra por parte de fundos imobiliários.
CNN Brasil - SP 19/10/2026
A construção civil brasileira vive um ponto de virada histórico. Por décadas, o setor esteve associado a processos artesanais, baixos índices de produtividade, desperdício elevado de materiais e frequentes atrasos no cronograma. No entanto, o cenário atual exige respostas diferentes: quem constrói hoje busca agilidade, precisão financeira, sustentabilidade e alto desempenho termoacústico. É nesse contexto que a construção industrializada deixa de ser uma alternativa para se tornar o motor da modernização do setor no país.
Os dados mais recentes comprovam essa mudança de patamar. Segundo levantamento do FGV Ibre, a adesão ao light steel frame no Brasil deu um salto impressionante, passando de 15,6% para 32% entre 2025 e 2026. A expansão reflete uma transformação cultural na engenharia e na arquitetura do país: hoje, as estruturas em aço já figuram como as tecnologias industrializadas mais populares do Brasil, adotadas por 51% das empresas do setor.
Essa consolidação não acontece por acaso. A construção a seco e os sistemas industrializados oferecem o que o modelo tradicional mais peca: previsibilidade. Em um cenário econômico no qual a margem de erro das empresas e dos orçamentos familiares é cada vez mais estreita, saber exatamente quanto a obra vai custar, quanto tempo vai durar e qual será seu padrão de entrega torna-se um diferencial decisivo.
Para responder a essa demanda crescente, o mercado precisou evoluir. O grande desafio da construção a seco no Brasil nunca foi a falta de interesse técnico, mas a fragmentação da cadeia. Historicamente, quem decidia construir em steel framing precisava articular individualmente o projeto arquitetônico, a engenharia estrutural, a compra dos perfis e insumos e, por fim, a contratação da mão de obra especializada.
A chave para destravar o potencial desse mercado no país esteve justamente em integrar essas pontas. Desde 2014, na Espaço Smart, trabalhamos na construção de um ecossistema completo que conecta indústria, varejo, e-commerce, projetos, capacitação e execução final de obras corporativas. Ao aproximar o desenvolvimento industrial do canteiro de obras, reduz-se o atrito e simplifica-se o acesso à tecnologia.
Os resultados dessa integração falam por si. Em 2026, projetamos alcançar um faturamento de R$ 1.2 bilhão, tendo registrado R$ 550 milhões apenas no primeiro semestre, impulsionados por um parque fabril em expansão, com R$ 10 milhões investidos recentemente na unidade de Ponta Grossa (PR), mais de 50 lojas físicas no Brasil e no Paraguai, cinco centros de distribuição e mais de 1,6 milhão de m² construídos em projetos comercializados em light steel framing.
O avanço registrado pelo FGV Ibre sinaliza que o Brasil finalmente está alinhando seus métodos construtivos aos padrões internacionais de eficiência. A industrialização da construção não é apenas uma tendência passageira; é a resposta concreta para os gargalos históricos de produtividade e sustentabilidade no país. O canteiro de obras do futuro já é uma realidade, mais produtivo, limpo e inteligente.
InfraRoi - SP 19/10/2026
As novas regras da Reforma Tributária já trazem preocupações para o setor empresarial. Uma pesquisa da consultoria Ernst & Young (EY), com 214 executivos brasileiros, aponta a Reforma Tributária como a principal preocupação externa das empresas para os próximos três anos, sendo que o tema foi citado por 38% dos entrevistados. Embora o levantamento não seja específico da construção civil, os resultados mostram que as mudanças já estão no centro das discussões empresariais e podem trazer impactos para preços, contratos, créditos tributários, capital de giro e sistemas de gestão.
Na construção civil, esse movimento também deve chegar à cadeia de fornecedores. Para construtoras e incorporadoras, a reforma tributária pode mudar a forma de avaliar propostas e negociar contratos, fazendo com que fatores como regime tributário, geração e aproveitamento de créditos e custo efetivo ganhem espaço ao lado de preço, prazo e qualidade.
Na avaliação de Cristiano Gregorius, diretor executivo do Ecossistema Sienge, um dos principais desafios será ampliar o olhar sobre a própria cadeia de fornecimento. O executivo elenca os principais pontos que devem entrar na conta na hora de escolher e negociar com fornecedores. Confira:
Atenção ao regime tributário dos fornecedores
Ele diz que a construtora não pode olhar para a Reforma Tributária apenas a partir do próprio regime. “É preciso entender também como os fornecedores estratégicos serão impactados, porque essa escolha pode ter reflexos no preço, na geração de créditos e, consequentemente, no custo efetivo da operação.”
A escolha de um fornecedor tradicionalmente envolve fatores como preço, qualidade, prazo e capacidade de entrega. Com a nova dinâmica tributária, porém, o regime tributário do parceiro também passa a fazer parte dessa análise, principalmente pelos impactos que pode ter na geração de créditos de IBS e CBS.
Fornecedores enquadrados no Simples Nacional podem ter uma dinâmica diferente daqueles que recolhem os novos tributos pelo regime regular. Por isso, as construtoras precisam começar a mapear seus principais fornecedores e entender como eles pretendem se posicionar diante da Reforma Tributária.
“O regime tributário deixa de ser uma informação restrita ao fornecedor ou ao departamento fiscal. Para quem compra, ele pode impactar diretamente a análise econômica da operação. Por isso, mapear os principais fornecedores e entender como eles pretendem atuar em 2027 deve estar entre as primeiras iniciativas das construtoras”, explica o executivo.
O impacto no custo dos fornecedores
A Reforma Tributária também pode afetar o preço cobrado pelos fornecedores, especialmente no caso de prestadores de serviços. Dependendo do regime tributário e da operação, a dinâmica de geração de créditos de IBS e CBS pode ser diferente, o que pode impactar a formação dos preços cobrados das construtoras.
Nesse cenário, a comparação entre fornecedores não deve considerar apenas o preço apresentado. Será preciso avaliar se é mais vantajoso contratar um parceiro com valor maior, mas que permita maior aproveitamento de créditos, ou manter uma opção mais barata, mas com menor possibilidade de geração desse benefício.
“A empresa vai precisar olhar para o custo efetivo da contratação. Um fornecedor pode ter um preço menor, mas, se a operação gerar menos créditos, essa diferença pode não representar uma economia real. A comparação precisa considerar o preço e o efeito tributário da contratação”, afirma ele.
A importância de antecipar essa negociação
Mais do que avaliar o próprio regime tributário, as construtoras precisam acompanhar como fornecedores estratégicos estão se preparando para a mudança com a Reforma Tributária. Entender antecipadamente como eles pretendem formar seus preços em 2027 pode ajudar as empresas a se preparar para possíveis impactos nos custos.
“Essa atenção é especialmente importante em contratos de longo prazo, comuns na construção civil, que podem atravessar diferentes etapas da transição tributária. Antecipar a discussão também permite que as empresas avaliem as condições comerciais e negociem eventuais impactos antes que eles sejam incorporados aos contratos”, ressalta Gregorius.
O caso das incorporadoras no RET
Para incorporadoras que permanecem no Regime Especial de Tributação (RET), a dinâmica é diferente. Nesse cenário, não há aproveitamento de créditos de IBS e CBS, o que reduz o impacto direto da escolha do regime tributário dos fornecedores sobre esse aspecto da operação. Por isso, a análise precisa considerar o regime em que a incorporadora está enquadrada antes de definir como a mudança tributária pode afetar sua relação com fornecedores.
A decisão precisa considerar o ciclo do empreendimento
Para as empresas que avaliarem uma eventual migração de regime, o momento do empreendimento também precisa entrar na análise. Em uma obra próxima da entrega, por exemplo, boa parte dos custos já pode ter sido realizada, reduzindo a relevância do aproveitamento de créditos, enquanto os recebimentos relacionados ao projeto continuam acontecendo.
Já em um empreendimento no início, ainda há um volume significativo de compras e custos pela frente, o que pode tornar a geração de créditos uma variável mais relevante na decisão.
Nesse cenário, Cristiano explica que a análise dos fornecedores não deve ser feita apenas uma vez. “O cadastro e a classificação tributária precisam ser revisados periodicamente, já que o enquadramento de um fornecedor pode mudar ao longo do exercício e impactar a dinâmica de créditos da operação. Por isso, acompanhar essas informações ao longo do ano passa a ser importante para evitar decisões baseadas em dados desatualizados.”
Revista Ferroviaria - RJ 19/10/2026
Um dos projetos que tiveram o cronograma revisto é a EF-118, conhecida como Anel Ferroviário do Sudeste. A expectativa agora é publicar o edital em dezembro, com a realização do leilão em 2027, adiando a previsão inicial de concluir o certame ainda em 2026.
Segundo Santoro, o Tribunal de Contas da União (TCU) não teve tempo hábil para analisar toda a estrutura do projeto, o que afetou o calendário anteriormente estabelecido. Entre os pontos que exigiram maior discussão está a matriz de riscos, cuja modelagem incorporou conceitos e práticas utilizados em concessões rodoviárias.
Por enquanto, o único leilão ferroviário confirmado para este ano é o do Corredor Minas-Rio, marcado para 17 de dezembro, na B3, em São Paulo.
O processo de estruturação dos projetos também envolveu questionamentos sobre os modelos de financiamento e os mecanismos de aporte de recursos nas ferrovias. Para o ministro, porém, as discussões contribuíram para o amadurecimento das propostas e para o aperfeiçoamento dos instrumentos de concessão.
Replicamos o modelo de rodovias, adaptado para ferrovias e isso exigiu um debate. Além disso, tivemos questões do investimento cruzado, da conta vinculada e dos aportes públicos. Discussões como se é uma concessão ou PPP. Temos muita clareza que estamos maduros nestes projetos. Tentamos esse ano, apresentou ao TCU, mas não houve tempo para apreciação.
Chamamentos públicos buscam reativar ferrovias e atrair novos operadores
Além das concessões tradicionais, o Ministério dos Transportes aposta nos chamamentos públicos como instrumento para ampliar a participação privada no setor ferroviário. O modelo prevê a atuação de operadores sob o regime de autorização, abrindo espaço para propostas de exploração de trechos e ativos ferroviários.
Sete desses projetos têm previsão de lançamento em fevereiro de 2027, com a realização dos respectivos leilões cerca de 60 dias depois. Outras duas iniciativas a ferrovia entre Fortaleza e Sobral, no Ceará, e o trecho entre São Luís e Itapecuru Mirim, no Maranhão têm editais e leilões projetados para a segunda metade de 2027.
Já os chamamentos destinados a 12 terminais ferroviários greenfield, ou seja, construídos em áreas sem instalações preexistentes, deverão permanecer abertos durante todo o ano de 2027. O objetivo é permitir que investidores e operadores interessados avaliem as oportunidades e apresentem propostas para o desenvolvimento desses empreendimentos.
A estratégia busca destravar projetos que, por diferentes razões, não avançaram pelos modelos convencionais de concessão. Ao permitir que a iniciativa privada apresente alternativas para a exploração de trechos ferroviários, o governo pretende ampliar as possibilidades de recuperação da infraestrutura existente.
Na carteira do ano que vem, mais da metade, a maior parte dos projetos são de chamamentos públicos, uma solução que construímos cm o TCU e PPI, uma solução inovadora que abre caminho para recuperar uma malha ferroviária que está em desuso hoje. Podemos recuperar a malha com projetos que o privado vai trazer
Governo mira investidores internacionais e busca ampliar a concorrência
A estratégia de estruturação da carteira também envolve a busca por capital estrangeiro e a diversificação dos participantes nos processos de concessão. A intenção é ampliar o número de investidores interessados no setor, ao mesmo tempo que o governo procura reduzir entraves que possam comprometer a atratividade dos projetos.
Santoro destacou que o Ministério dos Transportes realiza roadshows internacionais desde 2023 para apresentar as oportunidades ferroviárias a fundos de infraestrutura e outros agentes do mercado financeiro. Segundo ele, a aproximação com potenciais investidores ainda durante a fase de estruturação é importante para aumentar a confiança nos projetos e oferecer maior segurança jurídica para a aplicação dos recursos.
Estamos fazendo roadshows desde 2023 fora do Brasil e cada vez mais investidores de fundos de infraestrutura tem começado a participar desde a fase de estruturação dos projetos. Quando vamos fazer um roadshows e apresentamos os projetos, temos instrumentos para que o mercado conheça, acredite e tenha segurança jurídica para aportar os recursos. É um dinheiro novo, não só o que está aqui no país, um dinheiro que olhe para longo prazo.
Temos a necessidade de uma taxa de financiamento mais adequada ao projeto para rentabilizar esse capital de uma maneira adequada e com segurança. A matriz de risco evoluiu muito no Brasil, mas ainda temos algumas questões como cambiais, que são desafios e precisamos melhorar através de instrumentos financeiros.
O ministro também apontou que a consolidação de mecanismos financeiros adequados será fundamental para atrair recursos de longo prazo. Entre os desafios estão as condições de financiamento e a exposição cambial, fatores que podem influenciar a rentabilidade e a segurança dos investimentos em infraestrutura ferroviária.
Integração logística está entre os objetivos da carteira
Caso os projetos avancem conforme o planejamento, a carteira poderá contribuir para fortalecer a integração entre ferrovias, rodovias e hidrovias, conectando diferentes regiões produtoras às zonas portuárias e ampliando as alternativas para o escoamento da produção nacional.
Apesar das perspectivas de expansão, Santoro ponderou que a chegada de novas operadoras ferroviárias estrangeiras ao Brasil não é necessariamente o cenário mais provável. A expectativa é que a diversificação também ocorra por meio de investidores financeiros e grupos já familiarizados com o mercado de infraestrutura.
Eu acho difícil operadoras estrangeiras virem para o Brasil. Apesar de que agora o Grupo México entrou na Argentina. Mas eles estão olhando estes projetos e acredito que teremos uma diversidade de atores novos igual em rodovias. Não vai ter um padrão único, mas vai depender [de cada] projeto. Eles já estão olhando, inclusive players financeiros que já estão em rodovias. O tempo de maturaçao é diferente e isso exige uma estruturação financeira mais robusta. É essa a diferença entre [concessão de] rodovias e ferrovias
Com a apresentação da carteira, o governo busca estabelecer um novo ciclo de investimentos ferroviários a partir de 2027. Além de viabilizar novas concessões, a aposta nos chamamentos públicos sinaliza uma tentativa de recuperar ativos subutilizados e ampliar as alternativas de financiamento e operação da infraestrutura sobre trilhos no país.
Valor - SP 19/10/2026
Embarcações terão 16 mil toneladas de porte bruto e serão destinadas ao transporte de produtos claros derivados de petróleo, como diesel marítimo, diesel S10, diesel S500 e gasolina de aviação.
O estaleiro Rio Grande iniciou a construção do primeiro de quatro navios da classe Handymax, utilizados para transporte de cargas a granel, que foram encomendados pela Transpetro, subsidiária de logística da Petrobras.
A Ecovix, dona do estaleiro, venceu licitação para realizar a construção das embarcações, no âmbito do programa Mar Aberto, de renovação e expansão da frota da Petrobras.
Ontem, o Rio Grande realizou a cerimônia de batimento de quilha do primeiro navio, seis meses após o processamento do aço do casco. O batimento de quilha é uma tradição secular, considerada como símbolo de proteção e boa sorte para a embarcação e seus tripulantes, e marca o início da construção de um navio.
Desde abril, o aço para o casco está sendo processado nas áreas fabris da Ecovix, de acordo com o cronograma alinhado com a Transpetro, disseram as empresas.
As embarcações terão 16 mil toneladas de porte bruto e serão destinadas ao transporte de produtos claros derivados de petróleo, como diesel marítimo, diesel S10, diesel S500 e gasolina de aviação.
Mais de 65% dos equipamentos necessários para a construção foram adquiridos e, em julho, 11 mil toneladas de aço vindas da Indonésia foram descarregadas no Estaleiro, reforçando os trabalhos, afirmaram a Ecovix e a Transpetro, em nota conjunta.
Nos próximos anos, o estaleiro Rio Grande construirá 13 navios para a Transpetro, incluindo os quatro Handymax.
“É a consolidação de um trabalho responsável de todo o nosso time para a construção desses quatro navios — os primeiros de vários que entregaremos à Transpetro ao longo dos próximos anos”, disse o presidente da Ecovix, Robson Passos.
“O projeto reforça a estratégia da companhia de ampliar sua capacidade operacional para atender às demandas do mercado e acompanhar a expansão da produção de petróleo no país”, afirmou o diretor de transporte marítimo da Transpetro, Jones Soares.
A Tribuna - SP 19/10/2026
A aproximação do término de mais um mandato de presidente da República provoca naturais avaliações em todos os setores. Um deles é o de portos. Para trazer um panorama sobre estes últimos quatro anos, A Tribuna pediu para quatro de seus colunistas da editoria Porto & Mar responderem qual avaliação fazem da atuação do Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) e da Autoridade Portuária de Santos (APS) considerando os últimos quatro anos.
A Reportagem também questionou o que precisa mudar na forma de gestão, independentemente de quem será o presidente a partir de 2027, inclusive em relação aos executivos que comandam os dois órgãos. As análises versam sobre pontos positivos e negativos ligados a projetos que saíram ou não do papel, além da necessidade de uma gestão com perfil técnico, sem estar atrelada a eventuais mudanças de governo. Confira o que disseram os colunistas.
Avanços pontuais, mas infraestrutura defasada
“O balanço tem dois lados. Do lado positivo, o Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) levou ao mercado uma sequência de leilões de terminais desde 2023, e Paranaguá (PR) continua sendo o melhor caso de sucesso desta gestão: os três terminais de granéis vegetais leiloados em abril de 2025 devem receber cerca de R$ 2,2 bilhões ao longo de 35 anos. O canal de acesso virou a primeira concessão desse tipo no País, com mais de R$ 1 bilhão previsto. Mostra que o modelo funciona e que o mercado quer investir, mas foi um dos poucos casos que chegaram ao fim.
Do lado das pendências, os projetos mais relevantes não saíram do papel. O Tecon Santos 10, anunciado como o maior leilão portuário da história do País, não se concretizou: já foi adiado oito vezes e segue sem data. O VDC29, em Vila do Conde (PA), teve a análise suspensa na Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) em julho. E os leilões dos canais de Santos, Itajaí (SC) e Rio Grande (RS) ainda carecem de avanço. Em Santos, a audiência pública só ocorreu em 1º de setembro e não há data para o leilão.
Sobre a Autoridade Portuária de Santos (APS), o Porto de Santos bateu recordes sucessivos de movimentação, mas a infraestrutura de acesso e a capacidade não acompanharam esse crescimento. O saldo desses quatro anos é de avanços pontuais em terminais, mas com a infraestrutura que mais pesa na competitividade, canais e grandes terminais, ainda defasada. A questão central não é tanto quem ocupa as cadeiras, e sim o perfil da gestão.
Ministério e APS se beneficiam quando são conduzidos por profissionais com perfil mais técnico, porque isso facilita o diálogo com o mercado, com a agência reguladora e com o Tribunal de Contas da União (TCU). Esse diálogo torna as decisões mais ágeis, reduz retrabalho nos projetos e dá previsibilidade a quem vai investir.
Boa parte dos atrasos que citei passa justamente pela articulação entre esses órgãos. Seja qual for o resultado da eleição, o ideal é consolidar uma gestão técnica, estável e alinhada ao desenvolvimento da infraestrutura, com planejamento que atravesse os ciclos de governo”.
*Eduardo Jeronymo, engenheiro naval e consultor portuário
Executar com rapidez ainda é o maior desafio
“Faço um balanço positivo, embora ainda existam desafios importantes. Houve avanço na agenda de infraestrutura portuária, com novos projetos, investimentos e maior atenção a temas como acessos, dragagem, expansão da capacidade e sustentabilidade.
No caso de Santos, o Porto segue batendo recordes de movimentação, o que demonstra sua força, mas também aumenta a pressão por infraestrutura compatível com esse crescimento. Considero relevantes iniciativas como a ampliação da poligonal, o avanço das discussões sobre aprofundamento do canal, acessos terrestres, Tecon Santos 10, túnel Santos-Guarujá e incentivos ambientais.
O principal desafio continua sendo transformar planejamento em execução com rapidez. Santos cresce em ritmo acelerado e os projetos estruturantes precisam acompanhar. Não acredito que uma mudança de governo deva significar automaticamente a troca dos gestores ou a interrupção de políticas que estejam funcionando.
Infraestrutura portuária exige planejamento de longo prazo e continuidade. Mais importante do que discutir nomes é discutir o perfil da gestão: técnica, profissionalizada, orientada por resultados e com capacidade de dialogar com o setor e com os investidores. Projetos estruturantes não podem depender do calendário político. O fundamental é garantir continuidade, segurança jurídica, estabilidade regulatória e cobrança efetiva por resultados. Em infraestrutura, continuidade significa preservar o que funciona e corrigir com rapidez aquilo que precisa melhorar”.
*Cristina Wadner, advogada especialista em direito marítimo, portuário e aduaneiro
Menos políticos e mais técnicos no comando
“Toda mudança de governo gera atrasos e burocracia. Neste governo, tivemos três ministros e dois secretários nacionais de Portos. Ainda assim, eu acredito que o MPor tenha conseguido fazer entregas importantes, como as licitações para arrendamento de áreas portuárias e a concessão do canal de Paranaguá (PR), que foi o maior legado. Do lado negativo, não há como deixar de falar da licitação do Tecon Santos 10 – que não entra na conta apenas do Ministério – e do programa Navegue Simples, que não decolou.
Com relação à Autoridade Portuária de Santos (APS), com indicações mais políticas e menos técnicas, voltamos a conviver com a judicialização de inúmeros procedimentos e contratos, o que, na minha visão, é negativo. Por outro lado, houve um crescimento e uma participação maior da relação do Porto com a Cidade, que é um reclamo contínuo da sociedade santista.
Infraestrutura exige investimento intensivo e segurança jurídica. Uma das formas de garantir isso é indicar perfis técnicos, quer para o Ministério, secretarias e Autoridades Portuárias – especialmente onde houve delegação de competência. O corpo técnico da APS é competente, mas se o comando não for técnico, não adianta. A Lei das Estatais já é um instrumento valioso, mas somos criativos em burlá-la. A proposta de mudança da Lei 12.815/13 (dos Portos), discutida no Congresso, reforça esse perfil técnico, submetendo-o ao crivo do Conselho de Autoridade Portuária (CAP), que seria mais uma ferramenta nessa direção”.
*Thiago Miller, advogado especializado em direito marítimo, portuário e regulatório
Ciclo teve resultados relevantes
“Nos últimos anos, o setor portuário voltou a ocupar posição de destaque na agenda nacional de infraestrutura, com retomada de investimentos, estruturação de novos projetos, concessões e arrendamentos e maior interlocução entre o Ministério de Portos e Aeroportos (MPor), as autoridades portuárias e os diferentes agentes públicos e privados que integram o setor. Os resultados de movimentação demonstram a importância desse ciclo.
O sistema portuário brasileiro continua ampliando sua participação na logística e no comércio exterior do País, o que, ao mesmo tempo em que revela maior eficiência e capacidade operacional, aumenta a responsabilidade do poder público e das autoridades portuárias de antecipar os investimentos necessários ao crescimento da demanda.
No caso do Porto de Santos, essa realidade é particularmente evidente. O complexo vem registrando recordes de movimentação e possui uma agenda relevante de investimentos em ampliação de capacidade, acessos terrestres e aquaviários, dragagem, modernização da ferrovia interna, segurança, tecnologia e transformação digital, além de projetos estruturantes para todo o complexo portuário, como o Túnel Santos-Guarujá. É importante, contudo, que o crescimento da movimentação seja acompanhado pela expansão efetiva da infraestrutura. O principal desafio do próximo ciclo, em Santos e nos demais portos brasileiros, será transformar projetos, investimentos anunciados e planejamento em capacidade operacional disponível, com maior velocidade de execução, previsibilidade e segurança jurídica.
A Abeph entende que o balanço é positivo, sem deixar de reconhecer que ainda existem desafios relevantes. O setor portuário brasileiro cresceu e se tornou ainda mais estratégico para o País. O próximo passo é assegurar que infraestrutura, governança e capacidade de execução avancem na mesma velocidade. A discussão não deve ser reduzida à substituição ou permanência de pessoas. A questão central deve ser a avaliação objetiva dos resultados alcançados e a capacidade das instituições e de seus dirigentes de assegurar planejamento, eficiência, segurança jurídica, investimentos e execução.
O setor portuário trabalha com projetos de grande porte e investimentos de longo prazo, cuja maturação frequentemente ultrapassa um ou mais ciclos eleitorais. Por essa razão, mudanças de governo não deveriam significar interrupção de políticas públicas, projetos estruturantes ou modelos de gestão que estejam produzindo bons resultados. Evidentemente, a escolha dos dirigentes é uma prerrogativa de cada governo. Os cargos estratégicos do setor portuário devem ser ocupados por profissionais com qualificação técnica, conhecimento da atividade, capacidade de gestão, articulação institucional e compromisso com resultados. A continuidade ou substituição de dirigentes deve, sempre que possível, ser analisada a partir desses critérios.
No caso da Autoridade Portuária de Santos, a atual administração, presidida por Anderson Pomini, apresenta resultados que precisam ser objetivamente reconhecidos. O Porto vem registrando recordes de movimentação e possui uma agenda expressiva de investimentos e projetos estruturantes, construída em articulação com os governos Federal e do Estado, municípios e comunidade portuária. Isso não significa defender a permanência de pessoas como princípio. Significa defender que gestões que apresentam resultados, preservam capacidade técnica e conduzem adequadamente projetos de longo prazo não devem ser descontinuadas em razão da mudança de um ciclo político.
Mais do que discutir nomes, o próximo ciclo deve aprofundar a profissionalização da gestão portuária, fortalecer a autonomia administrativa das autoridades portuárias, ampliar a previsibilidade regulatória, acelerar a execução dos investimentos e melhorar a integração dos portos com ferrovias, rodovias e hidrovias.
Os portos brasileiros competem em um ambiente global e não podem ter seu planejamento condicionado ao calendário eleitoral. O desafio, independentemente de quem esteja na Presidência da República, é preservar aquilo que funciona, corrigir aquilo que precisa ser aperfeiçoado e garantir continuidade aos investimentos e projetos estratégicos que aumentem a eficiência e a competitividade do sistema portuário nacional”.
A Tribuna - SP 19/10/2026
A diretora-executiva da Associação Brasileira das Entidades Portuárias e Hidroviárias (Abeph), Gilmara Temóteo, defende que haja uma evolução na forma de se medir o sucesso dos portos brasileiros. Ela foi uma das integrantes do painel Infraestrutura & Comércio Exterior - Riscos e Oportunidades, no 2º Encontro do Mulheres a Bordo. A mediação foi da diretora de Programa da Secretaria Nacional de Portos, Rebecca Ferreira.
“O número grande de cargas e o sucesso logístico são importantes, mas não devem ser o parâmetro essencial. É necessário que se olhem diferentes realidades geográficas. Um porto com vocação de movimentação de granéis sólidos não pode ser comparado a um outro com vocação de contêineres”, afirma a diretora da Abeph.
Gilmara lembra que a capacidade de resiliência e de resposta às condições climáticas, o nível de autonomia da gestão e a capacidade de desenvolver novos negócios passam por esse olhar. “Vivemos um momento regulatório um pouco esquizofrênico. Conquista, ano a ano, de recordes sucessivos é indicador de sucesso, mas outros parâmetros precisam ser considerados no desenvolvimento do sistema portuário, de modo que ele seja competitivo e faça a diferença no comércio exterior”, reforça.
No Espírito Santo
A diretora jurídica e regulatória na VPorts Autoridade Portuária, Adriana Pessotti, trouxe a situação vivida no Espírito Santo, onde houve há quatro anos a privatização da administração que abarca os portos de Vitória, Vila Velha e Barra do Riacho.
“Passamos por crises e vimos que o porto é multipropósito, não ficando preso a uma carga somente. Se não estamos exportando chapa de granito, fazemos isso com granito de bloco”, afirma Adriana.
“Tivemos, em um primeiro momento, aprendizagem e adaptação de contrato para cumprimento dessas obrigações e passamos a uma nova fase em novos investimentos, como melhora de infraestrutura para sermos mais eficientes. O próprio contrato de concessão traz mecanismos para isso. Não é extremamente rígido”, emenda.
Adriana explica que, no quinto ano de vínculo, é possível a primeira revisão de parâmetros, podendo apresentar propostas que não estão previstas originalmente, como a ampliação de movimentação - antes entre 7,5 e 8 milhões de toneladas, passando para 9 milhões de toneladas neste ano.
“Conseguimos dar outra visão e dinamismo para o porto. Resolvemos questões antes intransponíveis. Precisava licitar para fazer sinalização horizontal, comprar café ou fazer dragagem. Isso para a gente é mais simples. Sabemos que o porto tem limitações físicas, mas que podem ser compensadas de outras maneiras. É um modelo que está dando certo”.
Ela explica que já foram assinados 20 contratos de exploração de áreas, contra um a cada quatro anos quando o porto era administrado de forma pública.
Fuga de mão de obra
A advogada Samara Gualberto mostra preocupação a respeito da fuga de mão de obra nos portos do Arco Norte, onde comanda e representa o escritório Ruy de Mello Miller (RMM). Embora haja melhorias e o interesse crescente na formação no setor, além de maior envolvimento por parte das empresas, ela ainda percebe uma maior quantidade de mão de obra indo para o Sudeste.
“Não tem como falar do Norte e não falar de oportunidades. Mas o que a gente vê é a mão de obra indo para o Sudeste. O que a gente nota no Arco Norte é uma divisão: grandes empresas já têm essa cultura na sua organização, já têm política de governança, mas a gente ainda nota nas empresas locais aquela questão que vai fazer porque precisa ou porque o Ministério Público estava pedindo”.
Valor - SP 19/10/2026
Washington insiste em incluir programa nuclear iraniano nas negociações desde o início, um dos principais pontos de divergência.
A oferta do Irã aos Estados Unidos para reabrir o Estreito de Ormuz dentro de sete dias continua sobre a mesa, afirmou o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araqchi, a veículos de imprensa iranianos no domingo.
O Irã apresentou sua proposta em meados de setembro, após o fracasso de um cessar-fogo provisório. Teerã reconheceu, posteriormente, ter recebido uma resposta dos Estados Unidos. Contudo, o chefe de segurança do Irã declarou, na semana passada, que as negociações estagnaram porque Washington não atendeu a todas as sete condições estabelecidas para a reabertura do estreito.
“Nossa posição é clara e baseia-se na proposta de sete dias apresentada aos Estados Unidos. Eles enviaram comentários que estamos analisando, mas nossa proposta continua sobre a mesa. Se houver alguma honestidade por parte dos Estados Unidos, o que não é o caso, o caminho para a reabertura do Estreito de Ormuz é evidente”, disse Araqchi, que se encontrava em Bagdá para uma reunião da Organização para a Cooperação Islâmica.
As condições do Irã incluem, entre outras exigências, o fim do bloqueio imposto pelos Estados Unidos aos portos iranianos, a suspensão das sanções americanas às exportações de petróleo do país, bem como o encerramento das hostilidades em todas as frentes regionais.
Segundo Araqchi, caso Washington aceite as condições de Teerã, o estreito poderia ser reaberto em seis dias, com a retomada das negociações no dia seguinte.
Um ponto central de divergência tem sido a insistência de Washington em abordar o programa nuclear iraniano logo de início.
O vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance, afirmou no início deste mês que o Irã precisa realizar uma redução “significativa” em sua capacidade de enriquecimento de urânio para atender às exigências americanas e encerrar o conflito, que já dura oito meses.
Teerã sustenta que as negociações devem focar, inicialmente, na reabertura do Estreito de Ormuz - por onde, antes da guerra, passava cerca de um quinto do comércio global de petróleo e gás natural liquefeito (GNL) - e no restabelecimento da segurança na via navegável.
Petro Notícias - SP 19/10/2026
A bp identificou indícios de hidrocarbonetos no poço 1-BP-14-SPS, o primeiro exploratório perfurado no bloco Tupinambá, no pré-sal da Bacia de Santos. A perfuração ocorreu em setembro, com a sonda Deepwater Mykonos, da Transocean.
A companhia arrematou 100% do bloco no segundo Ciclo da Oferta Permanente de Partilha de Produção, em dezembro de 2023. Em 2 de setembro deste ano, vendeu 50% da área para a Shell, mas permaneceu como operadora.
Tupinambá é um dos dois blocos operados pela bp no Brasil. O outro é Bumerangue, onde a empresa anunciou, em agosto do ano passado, sua maior descoberta em 25 anos.
O Estado de S.Paulo - SP 19/10/2026
A transição energética justa precisa ir além da propaganda na TV; queremos energia para produzir com competitividade; essa energia é gerada aqui e carece de um projeto de país
O Estreito de Ormuz demonstrou uma lição econômica poderosa: não precisa ser dono do mercado inteiro para dominá-lo. Basta controlar posições estratégicas. A estreita faixa de mar entre o Irã e Omã é uma espécie de pedágio das principais rotas comerciais no Oriente Médio, com poder de influenciar a economia mundial.
A recente popularização de Ormuz no imaginário brasileiro ajuda a explicar por analogia um grande problema do nosso setor de gás natural, um gargalo energético que promove a concentração da oferta, da comercialização e do acesso a infraestruturas de escoamento com custos excessivos.
No controle de diversos elos da cadeia, a Petrobras tem o seu Ormuz. Diagnóstico do Ministério de Minas e Energia (MME) indica que o custo de US$ 2,86/MMBTU na boca do poço vira US$ 12,08/MMBTU na entrada dos gasodutos, uma margem de 320% que extrai do setor produtivo R$ 15 bilhões ao ano. A empresa cobra pelo escoamento e processamento US$ 9,22/MMBTU, apesar do custo técnico estimado em US$ 1,19/MMBTU, segundo estudos oficiais.
A estatal controla 65% da produção nacional, cerca de 90% do processamento e tem participação relevante na importação, comercialização e transporte, e reinjeta 90 milhões de metros cúbicos por dia, o que lhe permite dominar a oferta. Para setores energo-intensivos, como os de fertilizantes, cerâmica, papel e celulose, alumínio, vidro, siderurgia e química, a energia representa até 40% do custo de produção.
A falta de transparência no preço, a restrição de acesso a infraestruturas essenciais e a limitação artificial da oferta formam o “Estreito de Ormuz da Petrobras”. Esperamos que o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) investigue o abuso de posição dominante. Por sua vez, as propostas do MME e da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) para desconcentração do mercado são uma vitória. A política de destinação do gás da União pode ampliar a oferta e baixar os preços. O Gas Release vai aumentar a concorrência. A indústria apoia.
Todo esse contexto disfuncional afeta as fábricas, o campo e as prateleiras dos supermercados. A transição energética justa precisa ir além da propaganda na TV. Queremos energia para produzir com competitividade. Essa energia é gerada aqui, com recursos naturais nacionais, e carece de um projeto de país, de uma visão sustentável de futuro e da consciência sobre o papel dos agentes que exploram esses recursos. O Brasil não precisa de um Estreito de Ormuz para chamar de seu.
Petro Notícias - SP 19/10/2026
A Potigás concluiu a implantação de 51,1 quilômetros de gasodutos entre Mossoró e Areia Branca, no Rio Grande do Norte, como parte do Polo Gás Sal, projeto voltado à expansão do fornecimento de gás natural para a região salineira. A obra recebeu investimentos superiores a R$ 33 milhões e foi executada entre janeiro de 2025 e agosto de 2026, ampliando a infraestrutura de distribuição na região da Costa Branca, no oeste potiguar.
A distribuidora integra o portfólio da Norgás, empresa que tem o Grupo Energisa como sócio majoritário. A nova rede foi dimensionada para atender nove empresas que já estão em operação e outras quatro com previsão de iniciar atividades até 2028.
Com forte presença da indústria salineira, a região poderá se beneficiar da disponibilidade de gás natural para ampliar sua capacidade produtiva. A estimativa é de que as empresas do segmento possam aumentar a produção em até 35%, com possíveis reflexos sobre a geração de empregos e a demanda por serviços de transporte, logística e outras atividades ligadas à cadeia produtiva.
“O Polo Gás Sal representa muito mais do que 51 quilômetros de rede. Estamos levando infraestrutura energética para uma região estratégica do Rio Grande do Norte e criando possibilidades para atividades industriais fundamentais para a economia potiguar”, afirma Dennis Falcon, diretor técnico-comercial da Potigás. Segundo o executivo, o projeto envolveu engenharia, integração de equipes e atenção à qualidade da execução.
Do total de gasodutos instalados, 35.889 metros — cerca de 70% da extensão da rede — foram executados pelo método de furo direcional. A técnica permite instalar tubulações sem a necessidade de abertura contínua de valas, reduzindo as intervenções na superfície e facilitando a execução de travessias e de trechos com restrições operacionais.
O projeto também incluiu a construção de uma Estação de Redução de Pressão no Polo Gás Sal e a implantação das demais estruturas necessárias à distribuição do combustível. Durante os 20 meses de execução, a obra gerou, em média, 30 empregos diretos.
A iniciativa faz parte da estratégia da Energisa de expandir as redes de gás natural para além dos principais centros urbanos. Com a ampliação da infraestrutura no interior potiguar, a companhia busca criar condições para o desenvolvimento industrial e estimular novas atividades econômicas no estado.
CNN Brasil - SP 19/10/2026
Há pouco mais de meio século, o Brasil importava parte da comida que colocava na mesa. Hoje, está a poucos bilhões de dólares de se tornar o maior exportador agrícola do planeta, posto ocupado pelos Estados Unidos há décadas. Na terça-feira (13), em evento do Ministério da Agricultura e Pecuária, o vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou que o país deve terminar 2026 como o maior exportador de alimentos do mundo.
A frase tem respaldo nos números. Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), as exportações do agronegócio brasileiro somaram o recorde de US$ 169,2 bilhões em 2025, o equivalente a 48,5% de tudo o que o país vendeu ao exterior. No mesmo ano, de acordo com o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), as exportações agrícolas americanas ficaram em US$ 171,3 bilhões, queda de 2,8%. A distância entre os dois, de pouco mais de US$ 2 bilhões, é a menor da história recente. Em 2021, pelas mesmas bases, passava de US$ 50 bilhões.
E 2026 acelerou o movimento. Levantamento da Confederação Nacional de Municípios (CNM), de outubro de 2026, com base em dados do MDIC e do MAPA, mostra que o agro brasileiro exportou US$ 133,6 bilhões entre janeiro e setembro, alta de 5,5% sobre o mesmo período de 2025. O primeiro semestre já havia sido o melhor da série histórica, com cerca de US$ 87 bilhões, conforme o Radar Agro do Itaú BBA, de julho de 2026.
É uma notícia que merece ser celebrada. Mas, como toda boa notícia econômica, também merece ser examinada.
Por que a virada acontece agora?
A primeira força por trás do movimento é a produção. O 12º Levantamento da Safra de Grãos 2025/26, da Conab, divulgado em setembro de 2026, estima uma colheita recorde de 361,7 milhões de toneladas, alta de 2,6% sobre a safra anterior, com 180,4 milhões de toneladas só de soja.
A segunda é produtividade. O relatório Perspectivas Agrícolas 2026-2035, da OCDE e da FAO, publicado em junho de 2026, aponta que o crescimento brasileiro virá mais de ganhos de eficiência e do uso mais intenso da terra, como a segunda safra no mesmo ano, do que da abertura de novas áreas. O mesmo estudo projeta que o Brasil responderá por 61% das exportações mundiais de soja na próxima década e assumirá a liderança global nas vendas de algodão em pluma, à frente dos americanos.
A terceira é geopolítica. A disputa comercial entre Washington e Pequim abriu espaço para o Brasil. No relatório Outlook for U.S. Agricultural Trade de agosto de 2026, o próprio USDA projeta que as exportações agrícolas americanas para a China cairão para US$ 12 bilhões no ano fiscal de 2026, recuo de 26% em relação ao ano anterior. Do lado de cá, a China absorveu 35% da receita do agro brasileiro no primeiro semestre, cerca de US$ 31 bilhões, alta de 10,5%, segundo o Radar Agro do Itaú BBA.
Um cuidado com a régua
Antes de cravar a ultrapassagem, vale lembrar que não existe um placar oficial único. O conceito de agronegócio usado pelo MAPA inclui produtos florestais, como celulose e madeira, que ficam fora da conta agrícola do USDA. Além disso, o governo americano trabalha com ano fiscal, que vai de outubro a setembro. Por esse critério, o USDA projeta exportações de US$ 179,5 bilhões em 2026, alta de 1,8%.
Se o Brasil mantiver até dezembro o ritmo de crescimento observado até setembro, encerrará o ano perto de US$ 178 bilhões. Na prática, é um empate técnico, em que o resultado depende da metodologia escolhida. A virada estrutural é inegável; a data exata da ultrapassagem, nem tanto.
Os pontos que exigem atenção
Liderar o ranking não elimina fragilidades. A pauta segue concentrada: soja e carnes respondem por cerca de metade da receita do setor, e um único comprador, a China, por mais de um terço dela. Concentração amplia ganhos nos bons momentos e amplia perdas quando o cliente muda de ideia.
O tarifaço americano também deixou marcas. Segundo o Monitor do Comércio Brasil-EUA, da Amcham Brasil, com base em dados do Comexstat, as exportações agropecuárias brasileiras para os Estados Unidos caíram 17,8% entre janeiro e setembro de 2026, enquanto as vendas para outros destinos cresceram 8,9%.
Há ainda o descompasso entre o país e o produtor. Enquanto as exportações batem recordes, o Indicador Serasa Experian Agro de Recuperações Judiciais registrou 474 pedidos no primeiro trimestre de 2026, alta de 21,9% sobre o mesmo período de 2025. Entre produtores rurais organizados como empresa, o salto foi de 73,5%, com o cultivo de soja liderando os casos. A superpotência convive com endividamento e margens apertadas dentro da porteira.
O que isso significa para quem investe?
O primeiro cuidado é comportamental. Narrativas fortes, como a de um país que vira o celeiro do mundo, costumam provocar a sensação de que qualquer ativo ligado ao tema vai se valorizar. Mas o fato de o setor crescer no agregado não significa que todas as empresas, fundos e títulos ganhem na mesma proporção.
Os caminhos para se expor ao agro ficaram mais amplos. Pelo Boletim de Finanças do Agro, do MAPA, de setembro de 2026, os Fiagros já somam R$ 73 bilhões de patrimônio líquido em 301 fundos, os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) chegam a R$ 175 bilhões em estoque e as Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs), a R$ 563 bilhões.
Cada instrumento tem um risco diferente. A LCA, emitida por bancos, conta com a garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) dentro dos limites do fundo. O CRA não tem essa proteção, e o investidor assume o risco de crédito da empresa ou do produtor por trás do papel. Nos Fiagros, vale olhar a concentração de devedores, a qualidade das garantias e o histórico de inadimplência da carteira, além da liquidez das cotas.
Para quem prefere ações, três perguntas ajudam a separar oportunidade de euforia: quanto da receita da empresa depende de um único país, quanto do portfólio é processado ou industrializado e como ela lida com o câmbio. Exportadoras têm receita em dólar, o que funciona como proteção natural, mas sofrem quando o real se valoriza. Empresas que agregam valor ao produto tendem a depender menos do preço de uma única commodity.
Em qualquer caso, o tema cabe melhor dentro de uma carteira diversificada e de longo prazo, sem concentrar o patrimônio em uma única aposta. Não é recomendação de compra, e sim um critério para olhar o setor com mais clareza.
O Brasil está, de fato, mudando de patamar no mapa da comida mundial, fruto de décadas de pesquisa e investimento no campo. Para o país, o desafio é transformar volume em valor e depender menos de poucos produtos e poucos clientes. Para o investidor, é lembrar que o tamanho de uma tendência não substitui a análise de cada ativo.
Ser o maior exportador do mundo é uma manchete. Saber quem lucra com isso é o que faz diferença no seu bolso.
