Ajuste na indústria continua em janeiro

 

Valor Econômico, 4/2/09

O processo de ajuste da produção industrial continuou em janeiro. Embora algumas empresas tenham registrado recuperação em relação a dezembro e alguns indicadores preliminares sugiram isso, como o consumo de energia, os relatos são praticamente unânimes em apontar um desempenho bem pior do que o de janeiro de 2008 e do período anterior ao agravamento da crise. Os níveis de estoques ainda seguem elevados em alguns setores, como o de distribuição de aços planos e eletroeletrônicos, e as encomendas, fracas.




A distribuição de aços planos atingiu cerca de 210 mil toneladas em janeiro, mais que as 145,5 mil de dezembro, segundo Carlos Loureiro, presidente da Rio Negro. O resultado indica uma melhora em relação ao último mês de 2008, mas nem por isso Loureiro comemora. "Havia cinco bodes na sala e tiraram três. Melhorou, mas ficaram dois." Ele observa que a distribuição caiu 33,5% em relação a janeiro de 2007, e estima que a rede terminou janeiro com estoques equivalentes a quatro meses de vendas - o normal são 2,6 meses.

Loureiro conta que as encomendas diminuíram principalmente por parte da indústria automobilística e dos fabricantes de máquinas agrícolas e rodoviárias. Nesse cenário, nos dois primeiros meses de 2009 as empresas de distribuição devem reduzir em 10% o quadro de funcionários, hoje de 15 mil, afirma ele. Para este ano, Loureiro espera queda de 5% das vendas, na melhor hipótese. Em 2008, houve crescimento de 12,2%.

O presidente da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), Humberto Barbato, diz que janeiro foi um mês que o setor gostaria de esquecer: o nível de produção ficou próximo do registrado em dezembro, mas abaixo de igual mês de 2008.

Uma pesquisa realizada com os associados da Abinee aponta para um quadro preocupante para os próximos meses: 72% dos entrevistados disseram que as encomendas ficaram abaixo do registrado em dezembro de 2008. "Além disso, 64% das empresas disseram que os novos pedidos foram inferiores às expectativas." Segundo Barbato, os fabricantes de telefones celulares e de bens de informática são os que mais sofrem no momento.

No Polo Industrial de Manaus (PIM), janeiro não foi um bom mês. O diretor-executivo da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), Flávio Dutra, acredita que o desempenho foi pior do que em dezembro e muito mais fraco que no mesmo mês do ano passado. Os estoques de eletroeletrônicos, diz ele, seguem acima do desejado. Dutra diz que algumas empresas desse segmento ainda estão em férias coletivas, assim como algumas do setor de duas rodas, e demissões continuaram a ocorrer em janeiro.

Para a Brandili, fabricante catarinente de roupas para o segmento infantil, o ano não começou bem, conta o gerente-comercial, Germano Costa. Houve aumento dos estoques em janeiro pela baixa reposição de peças pelos varejistas, o que fez a empresa registrar vendas 15% menores em relação a janeiro do ano passado. "Programações de compras pelos lojistas foram canceladas porque o mercado parou."

A Brandili não deu férias coletivas no fim do ano. A empresa, segundo ele, também não realizou demissões em massa, mas reduzir as horas extras e paralisou um plano de expansão. Costa espera uma melhora das vendas nos próximos meses por uma estratégia de venda de produtos de menor valor agregado recém-adotada. Neste início de ano a empresa vende as peças da coleção de inverno. "Esta estratégia já deu alguns sinais de melhora nas vendas", diz ele, afirmando que em fevereiro a empresa deve crescer pelo menos 20% em vendas em relação a fevereiro de 2008.

A valorização do dólar em relação ao real garantiu a indústrias do setor têxtil, em dezembro e janeiro, resultados um pouco melhores que os de outros setores industriais. A Marisolregistrou crescimento entre 5% e 6% na produção em janeiro, em comparação com o mesmo mês de 2008, afirmou o diretor-financeiro do grupo, Devanir Danna. A Marisol concedeu férias coletivas de 15 dias, mesmo intervalo de anos anteriores

De acordo com o executivo, a carteira de pedidos para a coleção outono-inverno, que começou a ser produzida em janeiro, indica que a empresa terá crescimento no primeiro trimestre em relação a 2008. "O cenário tem mudado muito rapidamente, mas por enquanto os sinais são confortáveis", afirmou. Ele observa que a Marisol encerrou dezembro com estoques abaixo da média e não realizou demissões ou tomou qualquer medida para reduzir o ritmo de produção.

Já a Teka encerrou janeiro com produção 10% abaixo do planejado, segundo o diretor de comércio exterior e marketing, Marcello Stewers. "A empresa já trabalhava com a perspectiva de produzir menos que no ano passado." Em dezembro, a Teka produziu 12% abaixo do planejado.

Stewers afirmou, no entanto, que a indústria têxtil teve bastante dificuldade de exportar em 2007 e 2008, mas que, após a alta do dólar a partir de setembro, houve uma melhora nas encomendas para o mercado externo. "O setor têxtil está voltando a exportar, mesmo com a crise", disse.

Na Igasa, do Paraná, que faz tanques de combustível, cárteres e outras peças para veículos, as últimas semanas foram de poucos negócios. Seu maior mercado é o de reposição, mas a empresa também atende montadoras e exporta. "Temos representantes espalhados por todo o país, mas janeiro foi terrível", conta o diretor-industrial, Edgard Gonçalves Júnior, que tenta conseguir capital de giro no BNDES. "Não demitimos. Fizemos sacrifício e queimamos gordura."

O presidente do Sindimetal Paraná, Roberto Karam, diz que, para as fabricantes de peças para automóveis e eletrodomésticos do Estado, janeiro não foi bom. Na comparação com 2008, a queda nas vendas é estimada em 14%.

Ivan Oliveira, diretor-administrativo da Moval Móveis, de Arapongas (PR), informa que vendeu 8% mais (em volume) em janeiro, na comparação com o mesmo mês do ano passado. "Está dentro da expectativa." O executivo explicou que o último quadrimestre do ano costuma ser o melhor para o segmento. Em janeiro, há o movimento de reposição de estoques do varejo. Agora vem a preocupação com o que vai acontecer nos próximos meses. "Se 2009 empatar com 2008 em volume, está bom." No fim do ano passado a Moval, que opera com dois turnos, chegou a criar um terceiro, mas recuou na estratégia e dispensou 80 pessoas.

No polo têxtil de Caruaru, no agreste pernambucano, os fabricantes de roupas começam a ficar preocupados com o desempenho das empresas ao longo de 2009. A demanda em janeiro ficou cerca de 10% inferior à registrada no mesmo mês do ano passado, segundo informações do Sindicato das Indústrias do Vestuário de Pernambuco. "O mercado está bastante parado. Com as notícias de crise, parece que todo mundo se retraiu", diz Maria José da Silva, sócia da Tavernit, lavanderia e fabricante de jeans. Em dezembro, diante da menor demanda, a empresa demitiu 20% dos funcionários, o que equivaleu a 24 pessoas.

De acordo com Fredi Maia, presidente do Sindivest, diversas outras empresas do polo caruaruense deram férias coletivas a seus empregados por causa da retração nas vendas. A Rota do Mar, que fabrica 150 mil peças de roupas por mês, viu as vendas encolherem 15% no primeiro mês do ano em relação janeiro de 2008, depois de terem crescido 25% em dezembro. Apesar disso, para o ano, o empresário Arnaldo Xavier, dono da empresa, espera um crescimento de 18% no faturamento.

Depois do tombo ocorrido no quarto trimestre de 2008, a expectativa dos economistas é de uma alta da produção industrial em janeiro na comparação com dezembro, na série com ajuste sazonal. A LCA Consultores nota que, no mês passado, os licenciamentos de automóveis e comerciais leves avançaram 5,9%, o consumo de energia elétrica cresceu 0,6%, e o indicador de produção prevista da sondagem da Fundação Getúlio Vargas (FGV), 8,1%. Isso pode garantir uma expansão em janeiro de 10% para a produção em relação a dezembro, diz o economista-chefe da LCA, Bráulio Borges. Sobre janeiro de 2008, porém, ele espera uma queda de 10%, por causa da elevada base de comparação. O BNP Paribas acredita em alta de 4,5% em relação a dezembro, mas recuo de 15% sobre janeiro do ano passado.

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ArcelorMittal monta base no Brasil

 

Valor Econômico, 5/2/09

José Francisco Martins Viveiros, executivo da gigante siderúrgica ArcelorMittal, acaba de trocar Londres, onde cuidava das operações de minério de ferro da companhia em âmbito mundial, por Belo Horizonte. Mineiro que é, está satisfeito de voltar a sua terra para presidir a ArcelorMittal Serra Azul, empresa que opera a mina adquirida da London Mining por US$ 810 milhões, em julho de 2008. Viveiros será substituído no cargo global pelo canadense Peter Kukielski, oriundo da mineradora TechCominco.

No Brasil, ele terá a missão de gerir os ativos de minério de ferro da companhia, dentro da estratégia do grupo de ter no médio e longo prazo 70% de suprimento desta matéria-prima de minas próprias. Hoje, detém 45% do minério de ferro que alimenta suas usinas no mundo. Viveiros disse que, apesar da crise global, a ArcelorMittal não abandonou esta meta. "Nossa estratégia não mudou. Apenas a velocidade de aquisição e investimento desses ativos será menor".

Sob a responsabilidade do executivo estará também um projeto de exploração de reservas de ferro e manganês da Mineração Pirâmide Participações (MPP), de Corumbá (MS), adquirido em agosto passado. O grupo comprou ainda direitos de pesquisa de áreas no norte da Bahia, perto da divisa com Pernambuco. Um contrato de pesquisa foi assinado com a Companhia Baiana de Pesquisas Minerais.

A mina Serra Azul será o embrião dessas atividades do grupo. Viveiros projeta uma produção de 3,5 milhões de toneladas neste ano, com exportação de 2,1 milhões de toneladas para as usinas da ArcelorMittal. O grupo tem mantido a decisão de corte de 35% da sua produção de aço com a crise global. Em princípio, Serra Azul será expandida, mas isso vai depender do nível de preço do minério que o mercado possa enxergar no longo prazo para viabilizar o projeto. Ele avalia que um dólar por unidade metálica seca-dmtu, algo correspondente a US$ 60 a tonelada, no longo prazo é necessário para viabilizar o projeto. "Se não tivermos a visão de um preço pelo menos nesta faixa, esses projetos não conseguem decolar. Estávamos num patamar muito alto, agora não sabemos o que vem pela frente", afirmou o executivo.

Para ele, com a turbulência da crise, que derrubou o mercado de commodities, agora vive-se um período de total incerteza. Como o ciclo de alta das commodities chegou sem ninguém esperar, também todo mundo foi apanhado de surpresa pelo seu fim. "A conclusão: não temos instrumentos para medir e prever o que vai acontecer".

Viveiros, um ex-executivo da Vale, está preocupado com a logística da área de minério de ferro da ArcelorMittal. O grupo teve vetado pelo governo dio Rio seu projeto de terminal de embarque feito em sociedade com a Brazore, braço brasileiro da mineradora canadense Adriana Resources. A ArcelorMittal tem 80% desta sociedade cujo acordo final ainda não foi assinado. O terminal seria construído na baía de Sepetiba, na região de Itacuruçá, e foi recusado com outros dois terminais de grupos estrangeiras - o da BHP Billiton e o da Ferrous Brasil Resources, ambos na mesma região.

A Secretaria de Desenvolvimento do Estado do Rio, com base numa matriz de critérios vetou estes projetos considerados inviáveis do ponto de vista ambiental, econômico e social. Viveiros disse que não entendeu o veto.

No momento, a ArcelorMittal Serra Azul está exportando o seu minério pelo terminal da Vale. O executivo garantiu que não vai deixar de buscar uma saída para exportar seu próprio minério pelo litoral fluminense, servido pela ferrovia MRS. "Podemos disputar a licitação para construção e operação do terminal da Docas do Rio, como foi sugerido pelo governo, mas ela tem de acontecer".

Mas disse que gostaria de saber porque o trâmite do veto não seguiram o processo normal de exigência de EIA-RIMA. "Vamos aguardar os desdobramentos".

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Máquinas: setor espera 10% de crescimento

 

Jornal do Commercio – PE, 2/2/09

Enquanto diversos segmentos empresariais se preparam para enfrentar dificuldades em 2009 por conta dos reflexos da crise global, o ramo de locação de máquinas e equipamentos pesados em Pernambuco aguarda um bom ano, com perspectivas de crescimento de 10%. O motivo são os inúmeros projetos estruturadores e de grande porte, cujas obras estão tendo início ou já estão a pleno vapor, e que naturalmente mobilizam uma quantidade considerável de maquinário.

“São diversas obras em curso. A transposição do Rio São Francisco consome muito equipamento pesado. A Transnordestina finalmente vai andar em Pernambuco, depois de longas datas de espera, a desapropriação de terras está caminhando e o Ibama já liberou a execução das obras. A duplicação da BR-104 teve a ordem de serviço assinada na última sexta-feira. A duplicação da BR-101 tem mantido o ritmo de execução. O Estaleiro está em plena carga. E as obras civis da Refinaria Abreu e Lima demandam vários contratos de locação. Todos esses fatores fazem crescer o setor”, lista o presidente do Sindicato das Empresas Locadoras de Equipamentos, Máquinas e Ferramentas de Pernambuco (Sindileq), Reynaldo Fraiha Nunes.

Apesar do otimismo, Nunes admite que se a crise não tivesse mostrado suas garras no Estado, a projeção de crescimento para este ano poderia ser maior. Porém, a retração de alguns segmentos pode vir a representar lucros para o setor de locação de equipamentos.

Pois como a ordem agora é reduzir os custos, empresas tendem a substituir a aquisição de máquinas pela locação, abrindo ainda mais espaços no mercado pernambucano para as empresas do ramo.

“No atual contexto econômico, a locação de equipamentos ainda está ocupando pouco espaço. Há muito terreno a ser ocupado, não estamos utilizando plenamente nossa capacidade. Estamos dentro de uma área em franco crescimento”, comenta o presidente do Sindileq.

Nem mesmo os atrasos nos cronogramas oficiais dos empreendimentos diminuem o otimismo de Nunes. Ele cita o mercado imobiliário, que diminuiu o número de lançamentos e até adiou alguns por conta do cenário adverso, principalmente de concessão de crédito a pessoas físicas, que traz impactos fortes para a atividade.

“Mesmo assim, o grande volume de lançamentos realizados em 2008 vão ter as suas obras iniciadas este ano. E é justamente nesse momento que o aluguel de máquinas ocorre”, justifica. Em Pernambuco, são mais de cem empresas atuando na locação de escoramentos metálicos, máquinas pesadas, contêineres, empilhadeiras e ferramentas em geral.

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Menor apetite chinês vai tirar US$ 1,5 bi da exportação brasileira

 

Valor Econômico, 3/2/09

Um dos países mais beneficiados pelo voraz apetite chinês por commodities, o Brasil vai sofrer com a desaceleração do gigante asiático. O país deve perder pelo menos US$ 1,5 bilhão em vendas de apenas três produtos - soja, minério de ferro e petróleo - para os chineses este ano. Especialistas em comércio exterior acreditam que a China está trocando os banquetes de commodities por uma dieta mais equilibrada. Por isso, além desta perda, investimentos futuros com alvo no mercado chinês devem ser bem estudados, dizem os analistas.

Conforme a estimativa do Conselho Brasil-China, as exportações para o país asiático de soja, minério de ferro e petróleo vão cair 12%, de US$ 12,7 bilhões em 2008 para US$ 11,2 bilhões em 2009. Essas commodities representam 77% da pauta de exportação do Brasil para a China. As projeções apontam queda de 19,4% nas vendas de soja para a China em 2009, 46,4% no petróleo, e alta de 13,7% no minério de ferro. O conselho parte da premissa que as exportações serão prejudicadas apenas pela queda de preços, porque os volumes de soja e petróleo vão se manter constantes, enquanto o do minério pode subir 10% graças ao pacote de estímulo fiscal chinês . A hipótese é considerada otimista por outros analistas, para quem a queda das exportações para a China pode ser ainda mais significativa.

"A corrente comercial entre os dois países inevitavelmente vai cair. Vamos enfrentar uma redução substancial em valor com a queda dos preços das commodities, mas o volume dificilmente será afetado", disse Rodrigo Tavares Maciel, secretário-executivo do conselho. Maurício Moreira Mesquita, economista do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), discorda e avalia que a tendência é de queda para as exportações brasileiras para a China, não apenas em preço, mas também em volume. "Se a desaceleração da economia chinesa se aprofundar, o impacto para a América Latina vai ser severo", ponderou.

Em seis anos, os chineses quintuplicaram a compra desses produtos no Brasil. As exportações brasileiras de soja para a China saltaram de US$ 1,3 bilhão em 2003 para US$ 5,3 bilhões em 2008. No minério de ferro, as vendas saíram de US$ 765 milhões para US$ 4,9 bilhões no período. O petróleo - que sequer aparecia entre os principais produtos de exportação para a China em 2003 - rendeu US$ 1,7 bilhão ao país em 2008.

Dois fatores aplacaram a sofreguidão dos chineses por commodities brasileiras: a desaceleração do crescimento da economia do país - provocada pela crise global e pela fraqueza das exportações - e a consolidação da sua indústria pesada. O ritmo de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) da China desacelerou de 13% em 2007 para 9% em 2008 e deve ficar em 8% em 2009 nas expectativas otimistas. A indústria pesada chinesa está contaminada pelo excesso de produção, o que vai exigir a consolidação em empresas maiores e mais competitivas e limitar a construção de novas plantas. A preocupação do país com a poluição também deve desestimular investimentos.

"A posição de exportadores de commodities como o Brasil é mais forte que uma década atrás, mas planos de expansão baseados no ritmo de crescimento dos últimos anos têm que ser revistos", disse ao Valor Arthur Kroeber, diretor-executivo da Dragonomics, consultoria especializada em economia chinesa, sediada em Pequim. Kroeber avalia que a "chave" é que a demanda da China por commodities brasileiras vai seguir forte, mas a taxa de crescimento será bem menor, derrubando preços.

É o contrário do ciclo que levou as commodities às alturas. Entre 2003 e 2007, o crescimento da China saltou de 8% para 12% e a capacidade da indústria intensiva em recursos naturais aumentou muito. Como resultado, os preços de commodities como soja e petróleo saltaram 115% e 213%, respectivamente, entre 2003 e 2007, mas parte desses ganhos já foi devolvida. Desde 2008, as cotações da soja e do petróleo caíram 20,5% e 58,2%. No minério de ferro, que subiu mais de 70% só no ano passado, as siderúrgicas chinesas e a mineradora brasileira Vale estão travando uma queda-de-braço para definir o preço de 2009. A expectativa é de pelo menos 30% de queda.

O minério de ferro é bom exemplo das mudanças que estão ocorrendo na China e vão atingir o Brasil. Em 2000, a China produzia 100 milhões de toneladas de aço. Graças ao forte crescimento da economia local, chegou a um ritmo anualizado de 570 milhões de toneladas no início de 2008, quatro vezes mais do que em 2000. Preocupado com a inflação, o governo chinês introduziu medidas para desacelerar a economia. Em conjunto com a crise global, as medidas derrubaram a produção de aço para 420 milhões de toneladas no fim de 2008. Os analistas estimam que a China vai seguir produzindo entre 420 milhões e 450 milhões de toneladas de aço por ano, volume acima do de 2000, mas praticamente estável na comparação com o fim de 2008.

A demanda chinesa por soja - outro importante item da pauta de exportação do Brasil pela China - deve ser menos afetada. Para Trevor Houser, pesquisador do Instituto Peterson para Economia Internacional, o consumo de commodities agrícolas não sofre como as metálicas, já que a dieta alimentar da população varia muito menos que os ciclos de investimento. A soja é um produto importante na alimentação chinesa e sua substituição por outros alimentos é complicada. Os preços do grão, porém, devem permanecer baixos por conta da crise financeira, que reduziu a liquidez dos mercados.

O pacote de estímulo fiscal da China e a recuperação do mercado imobiliário local podem ajudar a sustentar o consumo de aço, cimento e cobre em 2009, evitando uma queda mais brusca da demanda pelo minério de ferro brasileiro. Mas o tamanho do impacto depende da eficácia do pacote, o que divide os analistas. O governo chinês anunciou US$ 586 bilhões em gastos para estimular a economia. Boa parte do investimento será destinado à infraestrutura, à recuperação das áreas afetadas pelo terremoto de Sichuan e à construção de casas populares.

"O declínio da demanda chinesa não será tão forte quanto alguns especulam, mas não é razoável esperar que os preços permaneçam no mesmo patamar dos últimos anos, porque os fundos de investimento inflaram as commodities", disse Li Gang Liu, economista-chefe do BBVA do departamento de pesquisa econômica da China e ex-funcionário do Banco Central de Hong Kong. Para Houser, o Brasil deve se preocupar mais com o colapso dos preços nos últimos seis meses do que com uma eventual queda de demanda, que levaria à redução do volume exportado. "Os preços devem continuar fracos até que o apetite chinês se recupere, o que ainda pode demorar um ano."

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Pacotes do governo animam construção

 

DCI, 3/2/09

Apesar do cenário ainda incerto com os rumos dos negócios do mercado imobiliário, que espera um primeiro trimestre ainda morno em relação ao mesmo período do ano anterior, por conta do pacote habitacional que será lançado pelo governo este mês, de acordo com o diretor de Relações Capital-Trabalho do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP), Haruo Ishikawa, a avaliação de empresários da construção era de que, por enquanto, não existe crise de emprego no setor.

Conforme Ishikawa, as novas contratações devem ser retomadas provavelmente ainda este mês de fevereiro, tanto no mercado imobiliário quanto na área de infraestrutura. "Em 2009, o emprego no setor deve crescer de 5% a 6%", disse o diretor do Sinduscon-SP.

Apesar disso, houve queda do nível de emprego da construção civil nos dois últimos meses de 2008, que ultrapassou os efeitos da sazonalidade, resultando também da piora das perspectivas em relação às condições da economia, segundo pesquisa mensal do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP) e da FGV Projetos, baseada nos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho e Emprego. Conforme o levantamento, o nível de emprego caiu 4% em dezembro em relação a novembro.

Agência Estado

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Fiesp quer restrição para alguns importados

 

O Estado de S. Paulo, 4/2/09

O presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, defendeu ontem uma suspensão seletiva da licença automática para importação de produtos mais sensíveis à indústria nacional. Itens que são produzidos localmente, mas sujeitos à concorrência predatória de importados - principalmente chineses -, dependeriam de aprovação prévia das licenças para entrar no País. Na semana passada, o Ministério do Desenvolvimento, da Indústria e do Comércio Exterior baixou uma circular suspendendo a licença automática para um grande número de itens da pauta de importações brasileira, mas teve de recuar diante da reação ruidosa de setores da indústria.

"A intenção pode ter sido boa, mas da maneira como a circular foi feita acabou causando uma grande confusão, porque incluiu tudo que é posição fiscal de matérias-primas, insumos, componentes e equipamentos que o Brasil precisa importar e não necessitam de burocracia nenhuma", disse Skaf em entrevista ao Estado. "Se a intenção foi boa, porém mal colocada, é culpa do ministério, que não discutiu a medida com o setor produtivo."

A proposta defendida por Skaf agora seria diferente. Ele argumenta que a a seleção mais apurada desses setores defenderia os empregos no País. "Nossa preocupação maior hoje é a questão do emprego e, logicamente, para haver preservação do emprego, tem que haver preservação da empresa, porque sem empresa não há emprego." A medida faz parte de um pacote de sugestões de combate a crise formulada pela entidade nas áreas tributária, fiscal, financeira e trabalhista, que vai ser encaminhada aos governo federal e do Estado de São Paulo.

Segundo o presidente da Fiesp, a balança comercial Brasil-China de produtos manufaturados (diferença entre as exportações e as importações) deverá apresentar um saldo negativo ao País de quase US$ 25 bilhões. No ano passado, o déficit foi de US$ 19 bilhões. Boa parte das exportações chinesas estariam sendo deslocadas para cá, "a preços de banana", em razão da queda na demanda de grandes mercados como o americano e o europeu, que entraram em recessão sob os efeitos da crise financeira mundial.

PRÁTICAS DESLEAIS

Para Skaf, "a indústria nacional está sendo agredida por práticas ilegais ou desleais de comércio, como dumping (preços abaixo do custo de produção)". Entre os produtos importados da China estão armações de óculos, lentes, confecções, calçados e eletroeletrônicos, que são fabricados aqui em setores que são grandes empregadores de mão de obra. "É momento de apertar a fiscalização nas alfândegas para não permitir gato por lebre nem subfaturamento."

Nesse sentido, o presidente da Fiesp propõe que, independentemente de medidas que possam ser tomadas antecipadamente, como a suspensão seletiva das licenças de importação, o governo precisaria tomar uma decisão política de acelerar medidas de defesa comercial. "Ou seja, se há indício de dumping, já se toma uma medida preventiva, impondo uma sobretaxa, por exemplo, como os outros países fazem conosco."

Entre as sugestões que a Fiesp vai encaminhar ao governo estão a criação de um mecanismo de financiamento para as exportações brasileiras com recursos em reais do compulsório bancário. A entidade propõe também medidas para a redução do spread bancário (diferença entre custo de captação e o cobrado nos empréstimos), como diminuir a incidência de impostos indiretos, como o PIS-Cofins, sobre a intermediação.

Além disso, sugere também eliminar a incidência do Imposto de Renda e da Contribuição sobre Lucro Líquido sobre o provisionamento de crédito.Na esfera estadual, a entidade defende a ampliação dos prazos para pagamento do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), que hoje é de 30 dias.

FRASES

Paulo Skaf
Presidente da Fiesp

"A intenção (do governo, ao criar barreiras aos importados) pode ter sido boa, mas, da maneira como a circular foi feita, acabou causando uma grande confusão porque incluiu tudo que é posição fiscal de matérias-primas, insumos, componentes e equipamentos que o Brasil precisa importar e não necessitam de burocracia nenhuma."

"Nossa preocupação maior hoje é com o emprego e, logicamente, para haver preservação do emprego, tem que haver preservação da empresa"

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